É dezembro

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Vivian Wrona Vainzof

Quando virei o rosto, vi que era uma senhora ruiva quem falava comigo, enquanto passava um pano nos copos e na bandeja que estavam no balcão. Foi só então que eu percebi que era comigo que ela falava. Foi só aí que a vi.

Fiquei sem jeito por não ter olhado antes, mesmo que ela estivesse quieta até então. Enchi meu copo, segurando na outra mão a redinha rendada que cobria a jarra. Ri sozinha ao lembrar da última vez, em que eu levei a rede comigo e tive que voltar para devolver. Contei essa história para ela, enquanto enchia a taça de vidro, sem tirar o olho do copo.

“É dezembro”, ela me explicou.

Quando olhei para ela, vi que tinha olhos de água. Vi que o cabelo não era hidratado mas estava arrumado. Vi que a pele era seca mas ela não. Em voz corrente ela transbordou:

“Você deve ser mãe. Mãe nunca dá conta de tudo. Quando chega dezembro, a gente carrega coisas demais”.

Não consegui tirar os olhos dela, imaginando quando foi que ela passou a me conhecer tão bem.

Com a cara vidrada e sem saber por que, não dei conta de não contar a ela que, hoje, no elevador, reparei que trazia a camisola na mão.

Era dezembro, afinal.

E ela tinha razão.

Nós, mães, em dezembro.
Nós, mães, em dezembro.