Em busca de equilíbrio

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Vivian Tempel Wroclawski

Eu estava tentando me entender com as marchas. Observando os outros, aquilo parecia tão natural quanto pedalar, mas, para principiantes, manter o equilíbrio pra não cair é o mais importante e minha atenção estava totalmente voltada a essa tarefa.

Já não lembro se perdi a capacidade de fazer 12 coisas ao mesmo tempo depois de ter filhos ou se ela foi se perdendo com o passar dos anos, assim como os fios do meu cabelo. O fato é que hoje preciso me concentrar numa única tarefa por vez. Se estou lendo uma notícia, sou incapaz de escutar o que as crianças estão conversando na mesa do café; se estou escrevendo um email, não há meio de ouvir uma ideia que surgiu no escritório e que precisa ser dividida naquele instante. Preciso parar de escrever, sintonizar o outro canal e escutar a ideia com minha atenção plena. Essa mudança de canal não leva mais do que 1 segundo, mas essa micro pausa é como meu cérebro consegue dar conta de tanta informação e estímulo. Acho até bom que seja assim. Gosto de pausas.

A palestra que assisti do professor de Harvard Tal Ben Shahar sobre o curso “A ciência da felicidade”, falava da importância de pausas para uma vida e mente equilibradas. Pequenas pausas ao longo do dia, como um café, um telefonema que não diga respeito ao trabalho, meditação; e grandes pausas ao longo do ano: férias. Breves ou longas, perto ou longe de casa, uma profunda e verdadeira quebra na rotina.

Tento cumprir anualmente o preceito. Me permito tirar férias com as crianças, me obrigo a tirar férias a dois e, nos últimos anos, percebi também a importância de estar um pouco sem nenhum deles, só entre amigas. Ainda não me aventurei a viajar sozinha, mas pode ser uma próxima experiência. Esse tempo longe de casa, do casal, dos filhos, ajuda a gente a enxergar nossa vida de fora e ajustar pequenas peças que foram se desencaixando no meio do caminho. O momento intenso com cada um também permite outros acertos, cria memórias, redefine, reafirma.

Dessa vez passei pouco mais de uma semana longe das crianças. E me aventurei a algo novo. Me desafiei a uma viagem de bicicleta. Não aprendi a pedalar quando eu era criança, talvez porque minha mãe não sabia, talvez porque não era um hábito na minha família. Mas há uns 10 anos, quando me tornei mãe, achei que era hora de corrigir o equívoco para não deixar o legado a meus filhos, e aluguei uma bicicleta pra tentar, sozinha, superar a vergonhosa falta de habilidade. De lá pra cá, devo ter subido umas 10 ou 15 vezes em uma, sempre tensa, mas cheia de vontade e esperança. Aprendi a me equilibrar, a fazer curva e, ano passado, num susto, me vi pedalando 20km numa estrada de terra cheia de pedras e buracos. Chorei, caí, sangrei, mas fui até o fim. Precisei de um ano pra me recuperar da experiência e decidir que uma viagem de bike faria muito bem pra mim, que adoro um desafio, e para o equilíbrio do meu casamento.

A bicicleta era ótima, cheia de marchas; o cenário, cinematográfico; a companhia, a mais segura e acalentadora; e a coragem e vontade, de uma criança aprendendo a pedalar. Mas as subidas eram mais longas do que eu previa, as estradas mais movimentadas do que eu podia imaginar, e as dores desconhecidas na perna, quase me fizeram parar. Pensei nos meus filhos e em quanto tento incentivá-los a não desistir, a curtir o que estão vivendo apesar das dificuldades, a reduzir os incômodos e dores a simples incômodos e dores, a apreciar a paisagem. E, com eles, meus filhos e meus pensamento, fui até o fim. Subi a montanha mais alta, já dominando as marchas, como se fizessem parte do meu corpo e, exausta, mas orgulhosa, me deleitei no prazer do que eu via e vivia.

Alguns ajustes foram feitos nesses dias longe de casa, alguns planos foram traçados e a respiração voltou a fluir normalmente. Estou pronta para mergulhar na rotina de novo, pronta para novos desafios.