Escola boa é escola perto de casa?

avatar de Deborah Goldemberg
Deborah Goldemberg

Ok, vivemos numa cidade em que os congestionamentos são o equivalente aos crocodilos das lagoas africanas ou às arraias venenosas nos rios amazônicos - o que há de mais mortalmente temeroso na vida de uma pessoa. Ok 2, eu acabo de voltar da reunião de pais da escolinha “perfeita” que escolhemos para nossa filha e ela não fica na esquina da minha casa. Mas, concordemos que não é normal a quantidade de mães que olham bem no fundo dos seus olhos e dizem, “Pedagogia, bah! Escolha uma escola perto da sua casa”.

Isso tudo começou com o controle remoto de TV, tenho certeza. Alguns leitores nem devem saber disso, mas antigamente a gente tinha que se levantar para trocar o canal da televisão, acreditem! Daí, inventaram o danado e o mundo como conhecíamos antes foi se acabando. Os maridos sentaram-se nos sofás e nunca mais se levantaram dali. Hoje, pedir para eles pegarem um copo de água na cozinha tornou-se um insulto! Os apartamentos modernos vêm com controle remoto para fechar as janelas e ligar o ar condicionado do quarto de dormir quando a novela entra no último bloco. O que está faltando? Um controle remoto para tirar o seu filho da cama, vesti-lo, alimentá-lo e entregá-lo em segurança na porta da escola.

Pode parecer exagero, mas não é! As pessoas desejam isso, no fundo do subconsciente delas, entre a meia-noite e o crepúsculo, quando (quase) ninguém está vendo. Elas desejam dormir um pouquinho mais. Ou, mais secretamente ainda, ter um tempinho para navegar naquele site de compras da internet antes do trabalho. A comodidade domina o mundo. As cadeiras são o habitat do homem moderno. Depois, as pessoas gastam milhares de reais para derreter o acumulo de gordura em suas barrigas, com tênis novos e academias. Melhor seria ir pegar aquele copo de água na geladeira e levar seu filho na escola de bicicleta. Afinal, aquela escola ideal pode não ser na esquina da sua casa, mas alguns quarteirões ao lado.

O que quero dizer é que o esforço para encontrar a escola ideal para sua família (e não vou nem dizer o tipo de escola que coube à minha família) vale a pena. Eu sempre soube disso, mas hoje tive ainda mais certeza ao entrar pelo portão azul anil, ao sentar na cadeirinha de palha em que minha filha vai sentar, ao olhar pelas cortinas de linho cor de salmão pela qual ela verá o mundo, ao cortar um pedaço do bolo de nozes que ela vai comer, ao saborear as amêndoas salgadas que ela vai mascar, ao apreciar a saia florida da professora que vai ler histórias para ela, ao curtir o corte de cabelo da mãe do amiguinho com quem ela vai estudar, ao descobrir que tenho tantas coisas em comuns com a mãe da amiguinha com quem ela vai subir no trepa-trepa. Sim, tudo aqui está certo para mim.

Mães! Pais! Levantem-se do sofá. Joguem o controle remoto pela janela. Calcem aqueles tênis caríssimos e saiam pelas ruas para visitar as vinte escolas que existem nos seus bairros até encontrar aquelazinha que é especial para você e sua família. Aquela que tem a sua cara. Essa escola existe! Mas, ela nem sempre está na esquina de casa! E se estiver, parabéns, você tirou a sorte grande!

por Deborah Goldemberg em Nove meses antes e novas mulheres depois.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.