Fila de adoção - Meu telefone tocou. E agora?

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Ana Davini

No momento em que você está inscrito no Cadastro Nacional de Adoção, vivenciando a sofrida espera, acha que seu telefone nunca vai tocar. Mas ele toca. Demora – e muito, às vezes -, mas toca.

Funciona basicamente assim: um assistente social te liga para dizer que finalmente tem uma criança (ou grupo de irmãos) dentro do seu perfil. Uma vez no fórum você recebe todas as informações possíveis: nome, idade, sexo, histórico familiar, antecedentes médicos, etc, e em seguida vê fotos.

Prepare-se bastante para este momento, que é crucial: como geralmente os pretendentes vão sozinhos ao fórum, precisam entender tudo o que será dito pela assistente social, inclusive termos médicos como sepse (infecção), apneia (parada respiratória) e cianose (arroxeamento da cor da pele por falta de oxigênio), entre outros. Na maioria das vezes não haverá permissão para anotar tudo e contatar um médico antes de dar uma resposta sobre a criança apresentada. E não sinta-se pressionado. Por mais que o desejo seja enorme, a decisão tem que ser racional. Se você não se sente preparado para cuidar de uma criança com paralisia cerebral, por exemplo, não a aceite.

Mas se os pretendentes compreenderem tudo o que foi explicado e se interessarem, então seguem para o abrigo para conhecer seu possível futuro filho. Para a maioria das pessoas que eu conheço – e para mim mesma – o momento deste encontro é mágico. Eu era cética até vivenciá-lo, mas foi impossível não ter certeza absoluta de que a minha hora de exercer a maternidade havia chegado.

Continuando, após algumas visitas, os pretendentes ganham o direito de sair para passear com a criança e até de levá-la para casa para dormir com a condição de devolvê-la no dia seguinte.

Dependendo de como for essa fase de aproximação no abrigo, o juiz pode exigir um estágio de convivência, que, no final de 2017 foi fixado em 90 dias, ou então já emitir a guarda provisória, que tem prazo máximo de oito meses, podendo durar metade disso. Somente depois de todo este período e se não houver problemas é que finalmente será entregue a guarda definitiva e emitida uma nova certidão de nascimento. A criança ganha então o sobrenome dos pais e os nomes deles como seus pais no papel, além, às vezes, de um novo nome, se autorizado pelo juiz.

Vale lembrar que o tempo entre o primeiro encontro e a emissão da guarda provisória depende de cada fórum e cada abrigo. Muitas vezes o processo acontece muito rápido, de um dia para outro, sem que o casal sequer tenha a chance de comprar roupas e produtos. Entidades como a Associação Maria Helen Drexel, de São Paulo, porém, são favoráveis a um maior tempo de convivência para estabelecimento dos vínculos afetivos antes de a criança ir para a casa dos pais adotivos, diminuindo a chance de problemas e devoluções.

Mas também pode acontecer de os pretendentes recusarem a criança que lhes foi oferecida. Se ela estiver dentro do perfil, entretanto, eles terão que passar por uma reavaliação psicológica, com a assistente social ou até com o juiz responsável pela Vara, o que lhes fará perder alguns meses.​

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