High-tech, low-human

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Vivian Wrona Vainzof

A reunião estava tão acalorada que quem estava lá, mal se ouvia. Parecia conversa em grupo de Facebook. Não participo de muitos, mas as vezes me ponho a ler com um olhar quase antropológico, uma tentativa de compreender a evolução humana. Estico meu pescoço e tento olhar mais do alto, tento ver de fora e vejo mais gente querendo ser ouvida do que ouvidos disponíveis para escutar. Para um pedido de ajuda - “quem me indica odonto pediatra na zona norte?”, por exemplo, uma enxurrada de respostas: “Dra. Mariangela, Dra. Mariangela, Dra. Mariangela, Dra. Mariangela, Dra. Mariangela, Dra. Mariangela, Dra. Mariangela.”

Se alguém ali parasse para ver e ouvir a conversa, saberia que essa recomendação da Dra. Mariangela, a fulana que queria ajuda, já tem. Mas quem pára? Uma minoria, provavelmente. Menos ainda é quem olha. E quase ninguém escuta.

E foi por isso que a reunião seguiu sem quase ninguém prestar atenção. Todos querendo dizer o que pensam mas poucos abertos a saber o que mais alguém pensa.

Já faz um tempo que as conversas, mesmo com filhos, mesmo aquelas que antigamente poderíamos jogar fora, até as conversas mais íntimas, viraram debates, onde responder é mais importante do que escutar.

Lá estavam todos os presentes, surdos com o falatório. Alguém na frente, que apresentava e explicava, tentou levantar a voz e tentou baixar também, mas as atenções estavam perdidas. E a busca por ouvidos era frenética. Ela dizia: “o que estou tentando dizer é que, com uma atitude dessa, vocês não estão necessariamente ajudando os seus filhos.” O assunto tinha virado uma discussão sobre autonomia x proteção, dois termos que separam pais entre o claro e o escuro, como se um anulasse completamente o outro, como se cuidar e ajudar não fosse permitir que os filhos ganhem aos poucos sua própria autonomia, sem abandono. Como se só houvesse um jeito de educar. A reunião terminou e fui embora muito descrente na nossa capacidade de dialogar uns com os outros. Seriam as redes sociais as responsáveis pelo monólogo da nossa vida? Ou é a obsessão pelo acerto? Ou a realidade digital, sem meios termos, sem tempo para transição?

Acompanhamos de bem perto todos os passos de quem quer que seja. De perto demais, até. Invadimos a privacidade eletrônica de todas as pessoas que conhecemos e nem conhecemos. Assuntos privados são tratados em grupo enquanto os grupos deitam com a gente na cama. E mesmo assim, pouco se ouve do que estão a dizer, seja ao vivo, seja no palco eletrônico. Em menos de uma década, o WhatsApp transformou as nossas vidas. O que será então dessa geração que já nasceu lá dentro? Que não tem outro modelo como referência. Que vê seus pais emaranhados em suas vidas como se pudessem conduzir a infância e controlar a adolescência a uma distância virtualmente segura.

Não tenho muita certeza da evolução humana. Às vezes acho que o desenvolvimento tecnológico nos joga de volta para a pré história da humanidade, para um estágio muito primário da nossa condução emocional. Por isso, faço minhas as palavras da coordenadora que falava na reunião, para quase ninguém ouvir e, escutar, menos ainda: “o que estou tentando dizer é que, com uma atitude dessa, vocês não estão necessariamente ajudando os filhos.”