Resistência

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Vivian Wrona Vainzof

Hoje cedo o noticiário me chocou mais uma vez. Todos os dias o rádio ou o jornal me abalam com alguma história que eu não esperava ouvir. Nem falo do mundo todo, só do Brasil brasileiro, tão imenso e diverso, de enredos tão diferente dos meus.

A trama parece ficção. Os personagens: um carcereiro e um preso, os dois deprimidos e traumatizados com o cheiro da morte. Cadáveres, degolas, as grades vistas de dentro e de fora, como experiências comuns, até ali.

O primeiro foi buscar no teatro a corda para fora do poço fundo. Descobriu na arte um acesso para os sentidos. Repensou valores, reencontrou consciência, conseguiu sentir e seguir, resolveu compartir. Levou, então, a salvação para dentro do presídio, onde encontrou o outro personagem dessa história.

A experiência, como relataram na reportagem da CBN, hoje cedo, é de chorar. Chorei de rir com as cenas que descortinam as entranhas da vida, o convite a dançar balé, a interpretar outro gênero, a resistência da maioria no começo, os contornos e os novos caminhos que se revelaram saídas, afinal. Não da cadeia, mas da anestesia emocional, pessoal e social em que viviam. Me emocionei também com a capacidade dessa gente de buscar caminhos que fazem sentido, de procurar seus sentidos, de encontrar significado numa vida insensata e insignificante.

Dante Gallian, nos seus belíssimos trabalhos de humanização da nossa gente, gosta de usar o conceito de aesthesis para explicar o despertar dos sentidos. O estético se contrapondo ao anestésico, um antídoto para a apatia dos tempos modernos, a arte como um transformador das pessoas.

Numa escola paulistana, ouvi do diretor a sua única aposta: que os alunos criem uma ligação afetiva com o conhecimento. Mais uma vez o sentimento mediando as experiências duradouras.

Aposto que eles têm razão.