Laços de Família

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Vivian Wrona Vainzof

​Domingo era dia de pizza na casa da minha avó. Na verdade, era a avó da minha mãe, mas como a gente não tinha outra, chamávamos essa bisavó de vó e assim ficou. Ela era bem velhinha, e parecia que tinha sido sempre assim, muito vagarosa, de poucas palavras e quase surda. O telefone da casa dela, que ficava num aparador bem em frente à entrada, perto da porta da cozinha, quando tocava, alarmava até o corpo de bombeiros e nem assim ela atendia… Mas ele tocava pouco, era muito sozinha, ela. Morava num pequeno apartamento cinzento que ficava em frente ao Parque da Luz, mas que era escuro a qualquer hora do dia e me dava calafrios. De Clara, tinha o nome e o cabelo, que era bem branco e brilhante. Ela usava vestido embaixo dos joelhos, casaco de lã, meia grossa e sapatos que mostravam o dedão dos pés sempre inchados. Além de só, a vovó Clara era ranzinza. Talvez uma coisa tenha sido consequência da outra mas não daria pra saber o que aconteceu primeiro. A vida não lhe foi só gentilezas e ela aguentou firme até quase os 100. E nós fomos lá todos os domingos.

Depois de casar, adotei uma avó que já quase não é postiça, é legitima e afetivamente minha. Meus filhos vivem com a bisavó e com os avós, os tios e os primos, assim como fomos criados também. Os laços familiares teceram boa parte das minhas raízes.

Essa semana, um pequeno grupo de primos meus viajou até Varsóvia, na Polônia, para visitar uma parte da história que lá ficou enterrada e esquecida por décadas. Visitaram a rua, o bairro e os túmulos de uma gente que parecia tão distante, mas eram bisnetos visitando seus bisavós. Aquela era a casa, a cidade e a vida da minha querida avó, que conheci pouco, que convivi pouco, mas que amo muito, de quem sei tantas histórias e lembro do perfume, da pele macia, do tom de voz, do sotaque, do olhar baixo, do cabelo arrumado, do sorriso afetuoso. Sou pentaneta desse casal que não viu seus filhos desembarcarem em terras tropicais, não conheceu netos, nem bisnetos e nem todos os outros que vieram depois deles. Tenho os olhos dela. O que mais em mim será deles?

Cinco gerações e um mar todo de distância não foram suficientes para afrouxar a ligação dessa família. Dezenas de parentes acompanhando a viagem à distância, diversas gerações compartilhando as lembranças e as emoções com todos os que foram e os que ficaram foi coisa de dar nó na garganta, de apertar laço familiar, de atar vínculo afetivo por muitas gerações mais.