Lambendo a Cria

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Vivian Wrona Vainzof

Da primeira vez que ele deitou a cabeça no meu colo, fiquei tão sem jeito, não sabia se estava esperando cafuné. Fiz um carinho na testa, que, de nós dois, pelo menos ele pareceu gostar, porque fechou os olhos pela metade. Depois me deu a mão direita, realmente uma patada pesada e desajeitada na minha coxa. Ele estava sentado no banquinho de palha e eu na poltrona baixa que fica ali do lado. Aquela não parecia uma posição cômoda para nenhum de nós, mas ele foi derretendo em cima de mim. Eu continuei sem graça, porque nunca ofereci meu carinho antes, mas ele, de fato, me desarmou. Fiquei vendida. Sem saída. E ele sentiu, porque foi chegando ainda mais perto, pôs a cabeça no meu peito, quis dividir a poltrona toda comigo e quando eu menos esperava, estávamos abraçados e minha surpresa foi que gostei.

Nossa convivência é muito frequente e eu nunca dei muita atenção, por isso mesmo não acreditei que ele tentaria se aproximar.

Não é que eu não goste de cachorros, só não faço questão deles, bom…, tão perto! E mesmo assim, de fininho, como se fosse um cão maltês, aquele monstro de cem quilos se aconchegou todinho em cima de mim, achando que era um bicho de pelúcia. Eu só retribui. Coloquei o caderno e o lápis no chão e me entreguei, achei que ele merecia. Aquele corpanzil que finge autossuficiência, de olhos verdes tão carentes.

Eu estava escrevendo um texto sobre afeto, lembrando de uma aula que ouvi sobre o comportamento materno dos ratos e a importância do carinho para os filhotes. Devo ter olhado para o Otto com outro olho, naquela manhã, de dentro do escritório, enquanto ele corria no jardim. Alguma coisa fez ele conter a energia elétrica que circula nas suas veias de cão de caça, muito alerta e muito vivo. Ele parou para me olhar. E eu, de longe, sem pensar que me ouvia ou me entenderia, falei amorosamente com ele. Se ele não ouviu ou não entendeu o que eu dizia, viu o que eu queria dizer. Ou ele escutou o que meus olhou falavam. Entendeu que eu tinha na cabeça o cachorrinho sem nome do dia em que ele chegou, todo marrom, meigo e macio, por quem eu tinha mesmo me apaixonado. Mas enquanto crescia e ocupava mais espaços do que estavam disponíveis para ele, corria jogando terra por onde passava, derrubando tudo no caminho e pulando até a altura da minha cabeça, assustando as crianças, criei distância. É mais fácil a estimação por um cachorro quando ele não tem o tamanho de um cavalo.

Mas então, ele me pediu.

Acho que carinho é bom sem pedir. Mas carinho pedido é irresistível.

Lembrei de novo dos ratos e do experimento canadense que comparou mães mais e menos carinhosas com seus ratinhos. O estudo mostrou que o comportamento dos bebês muda drasticamente quando são lambidos pela mãe desde que nascem. Anos mais tarde, continuam sendo animais menos estressados, ansiosos, agressivos e vorazes. E a repercussão dessas atitudes, tanto as positivas, dos que receberam muito afeto e atenção da mãe, quanto as negativas, foram notadas nas próximas 7 gerações das famílias Rato. Achei essa conclusão assustadora e alentadora também. Aumenta muito a responsabilidade das mães, que já quase não cabe na gente, mas também entrega nas nossas mãos o legado de um futuro melhor.

Esse assunto foi tema do último encontro Matutaí, com a terapeuta Glaucia Paiva, especializada em constelação familiar. Ela ajuda os pais a criarem consciência sobre o que transmitem aos filhos: se é o que desejam ou apenas o que carregam de geração em geração. O que nos pertence? Que medos, rancores, resistências e frustrações, podemos abandonar no curso da vida?

Os ratinhos mau-humorados tinham uma justa razão para serem assim. Desamparados, criaram defesas num mundo que parecia cruel. Mas seus filhos, netos e bisnetos e tantos outros depois, foram rebeldes sem causa aparente, ranzinzas só porque deviam isso aos seus ancestrais. Não foram carinhosos com seus bebês, não lamberam a cria e não quebraram o fluxo, porque afinal, eram ratos e também não sabiam pedir por carinho.

Estamos vivendo um tempo de homens-ratos. Vamos lamber nossa cria. Vamos pôr mais cachorros no colo. Vamos acolher mais nossos filhos, nossos vizinhos, nossos desconhecidos, mesmo quando não souberem pedir. Vamos honrar as nossas histórias e as dos outros, sem a dose de estresse, de ansiedade e de agressividade que está nos fazendo animais sem qualquer estimação.