Mãe polvo

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Vivian Wrona Vainzof

Eu nunca tinha visto um polvo tão grande e tão de perto. Nem me lembro se eu já tinha mesmo visto um polvo antes, mas esse, com todos os braços abertos, tinha quase um metro de diâmetro. Não sei se tentáculo de polvo é braço ou é perna, mas olhando aquele bicho andar, tive certeza de que isso não tinha a menor importância. Acho que é um pouco de cada; dependendo da hora e da necessidade, ele se vale de outra condição. Eu entendo isso bem…

A cabeça, então, era ainda mais impressionante. Ou então aquilo era o corpo dele, enorme e disforme… Eu não conseguia parar de olhar.
Estávamos dentro do pequeno pesqueiro que nos trouxe do passeio pelo canal. No fim do dia, crianças e adultos voltavam pra casa remando, velejando ou roncando baixo o motor dos barcos. Na paisagem de brinquedo, ancoravam na frente das casinhas que contornam a lagoa pantanosa.

Dizem que no fundo daquela água turva vivem tubarões, e que são amigáveis, mas não tivemos o prazer (ou desprazer) de um encontro frente à frente.

Só encontrei o polvo.

Ele estava dependurado no píer que chega até a marina. O marinheiro enganchou o coitado só pra se exibir… levou pra cima do deck de madeira e largou no chão uma massa rosada, gosmenta e despontada. Ainda fisgou um canto de pata, lascou uma fatia fina duma pontinha direita de uma das mãos - ou pés.

Um acidente desnecessário…

Mas o polvo não podia lamber a ferida, ele estava em seu caminho de volta ao mar.

Já passei por isso também. Talvez a família o esperasse para o jantar? Lá ia apressado, embolado, um pouco machucado, a cara enfezada não devia ser reflexo de um coração endurecido, devia ser só preocupação.

Por empatia ou identificação, solidarizei outra vez com o polvo. Dava pra ver que ele perdia a cabeça, trocava os pés pelas mãos, se atrapalhava, mas ele não parava, não parava…