Maternidade desideal

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Vivian Wrona Vainzof

Uns dias antes de dar à luz ao primeiro filho, visitei uma amiga na maternidade. Ela amamentava e eu quis saber tudo, quis aprender antes de chegar a minha vez e ela me explicou e me mostrou, enquanto, ali ao lado, a mãe dela ria muito. Era o cocho ensinando o cego a andar.

Comecei a amamentar por ideologia e continuei por satisfação. Eu sabia que o leite materno é o alimento mais nutritivo para o bebê, que amamentar estimula o desenvolvimento motor e emocional da criança, que estabelece uma conexão profunda com a mãe e tudo o mais que dizem as cartilhas para gestantes. Mas eu não sabia que a sensação de prazer seria avassaladora. Era mesmo uma convocação ao meu papel, como se a cada 3 horas eu renovasse os votos de dedicação.

Durou praticamente um ano com cada filho e só parei quando achei que estávamos, os dois, prontos para isso. Não sou boa com despedidas. Se dependesse só de mim, talvez eu não me sentisse pronta nunca. Acho difícil essa coisa de ver filho crescer, sair do meu colo, escolher os próprios passos, dizer o que gosta e quer… Acho estranho que a maternidade seja para qualquer um, sem formação, sem treino, sem manual e sem supervisão. Nos preparamos para tanta coisa e quando o assunto é dos mais sérios da vida, a vida nos deixa na mão, nos cobra aprender na marra, só errando para poder acertar. Não é a toa que acho o termo “mãe louca”, tão redundante. Não existe mãe preparada para tudo. Vamos vivendo a loucura de padecer no paraíso, sempre despreparadas para o próximo capítulo. Tem dia que preciso mesmo relembrar de 3 em 3 horas que ainda estou aprendendo e que a escola é experimental. E que vamos brigar e discordar muito ainda, porque é disso que se nutrem os filhos na constituição do seu caráter.

Hoje termina a semana mundial da amamentação, o que me faz lembrar que mãe nutre, para que filho cresça e não caiba mais no colo, se reconheça inteiro e não uma extensão da mãe, do pai, da família. Mãe nutre filho, esperando que abra os olhos para o que o cerca e que encontre conforto no seio materno, mesmo quando ela não estiver lá.

Nessa semana em que o tema está mundialmente em pauta, levanto de novo a bandeira da amamentação. Não só no peito, não só exclusiva, em livre demanda ou com hora marcada, amamentar alimenta a existência humana quando coloca um bebê no colo de alguém que cuida e olha nos olhos dele, enquanto alenta e acalenta. Faz do bichinho, pessoa, embora pareça ser exatamente o contrário.

Não faço parte de qualquer movimento social, mas faço um convite às mães e pais e todos os cuidadores de crianças pequenas e grandes, para que se conectem profundamente com os filhos, com disponibilidade e entrega, com interesse sincero, com vontade. Amamentar sempre foi, para mim - e de certa forma ainda é - uma sensação indescritível, puro deleite. Mas é só porque mãe tem memória curta.

A maternidade não é nada disso que vemos nos potes de margarina. É que amamentar, criar e educar filho é o que me alimenta e me faz crescer.