Maternidade opressiva

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Vivian Wrona Vainzof

​Acho que agora é sério, deu até no New York Times! Dessa vez não foi Jorge Ben quem anunciou, mas a notícia que se espalhou é que a maternidade (e paternidade) moderna é opressiva.

Alguma novidade? Não creio. Mas, sem dúvida, uma oportunidade, só mais uma, de se distanciar e olhar com sensatez para a corredeira que virou o papel de pais e mães, para repensar nossas escolhas.

Segundo a reportagem, criar filhos se tornou muito mais caro e exaustivo. E enquanto as preocupações e a dedicação só crescem, a sensação é de que as oportunidades se esvaem…

Os pais, hoje, assim como as mães, são mais presentes do que foram os seus próprios pais. A exigência hoje é muito maior.

  • Em poucas gerações, o aumento da quantidade de tempo, de atenção e de dinheiro dedicado aos filhos cresceu enormemente.
  • As mães que trabalham fora de casa entregam-se ao seu papel de mãe na mesma medida que o faziam as donas de casa dos anos 70.
  • Houve um tempo em que o pico de gasto com os filhos se dava quando estavam cursando o ensino médio. Hoje em dia, provavelmente por ansiedade, o maior investimento nos filhos ocorre antes de completarem seis anos e após os 18.
  • As aulas começam quando ainda são quase bebês. Mesmo aos doze anos, é raro que filhos estejam fora de vista. Não é estranho saber que uma criança toca piano desde os 5, faz natação desde os 4 e já experimentou artes marciais.

A ma/paternidade intensiva virou norma desde os anos 90, com constante ensino e acompanhamento dos filhos, mesmo quando os recursos para tanto não estavam, exatamente, sobrando. Muito pelo contrário: especialistas acreditam que o ensino permanente e o acompanhamento constante têm uma motivação central: ansiedade econômica. Foi nessa época que as crianças passaram a ser vistas como moldáveis. Quanto mais cedo, melhor. O resultado é um estilo parental “centrado na criança, orientado por especialistas, altamente emocional, trabalhoso e caro”, segundo as sociólogas Sharon Hays e Amette Lareau. E as mães foram responsabilizadas pelo bom andamento de todo o processo. As orientações desde a gestação, as bandeiras por esta ou aquelas causas, os livros, as referências para festas perfeitas, copiadas do Pinterest estão deixando a maioria dos pais muito atordoada. Ao mesmo tempo, o apoio aos pais que trabalham fora de casa não evolui na mesma proporção. A licença pa/maternidade, os subsídios para creche, a flexibilização dos horários, ainda deixam muito a desejar.

O tempo na companhia dos filhos pode não ter mudado tanto, mas a qualidade, sim. Hoje o tempo é dedicado a fazer lição com eles, levar e buscar, assistir apresentações, e ainda parece pouco. O papel principal de amar e disciplinar deu lugar à responsabilidade de entreter. A infância enriqueceu, mas parece que o custo foi a liberdade de ser criança.

Isso é verdade por aqui, além dos EUA, Inglaterra e Austrália, mas há países onde a “liberalização” da infância é maior. Em Tóquio, as crianças começam a andar de metrô no 1o ano e em Paris, ficam sozinhas nas praças. A diferença é a visão mais coletiva ou mais individual que se tem da responsabilidade da sociedade pelas crianças.

A sociedade atual, com famílias menores, consegue dedicar mais tempo, atenção e dinheiro para cada filho. Verdade que as crianças se beneficiam disso, mas para os estudiosos, ainda não está claro qual a influência real desta atitude dos pais, no sucesso dos filhos. É a ação direta dos pais ou o ambiente benéfico o que mais estimula o desenvolvimento das crianças?

Já existe um movimento de resistência contra a pa/maternidade opressiva atual. Há estados americanos que aprovaram leis que isentam pais de negligencia por deixar seus filhos brincarem desacompanhados. Psicólogos também alertam contra os altos níveis de estresse e de dependência dos jovens. Pesquisas apontam que crianças que crescem extremamente envolvidas pelos pais desenvolvem mais ansiedade e menos satisfação pela vida, ao passo que as crianças que crescem mais soltas, desenvolvem melhores habilidades socioemocionais e amadurecem com mais capacidades executivas.

Os pais – e sobretudo mães - estão exauridas. A entrega aos filhos custa-lhes tempo de sono, tempo sozinhas, com seus parceiros e de lazer, sem contar a carreira. Mesmo quem tenta não sobrecarregar nenhuma das partes, se vê sem opção quando precisa orientar sobre o tempo dos filhos na frente das telas, as lições de casa, a alimentação e todos os demais pratos que se equilibram ao mesmo tempo.

* Tradução livre do texto The Relentlessness of Modern Parenting, de Clair Cain Miller.