Matutaí com o Fernando Almeida

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Vivian Wrona Vainzof

Tem hora em que o amor não basta. Educar filho é o desafio de passar por cima de alguns dos nossos impulsos de leoa. O amor, se depender dele, cega, desvia, atropela nossas maiores convicções. Nessas horas, nossos exemplos valem mais do que uma vida toda de discursos moralizantes, como nos ensina Fernando Almeida, ex secretário de educação da cidade de São Paulo, no 3o encontro Matutaí que acontece na Escola Graduada, como parte da Roda de Encontros que acontece todos os meses, com pais e mães de lá. Ele pergunta como dá pra exigir autonomia da criança se continuamos pedindo para a mãe do amigo a lição que ela esqueceu de trazer? Como esperar que o filho supere as frustrações se corremos para tirar satisfação com a família que não o chamou para a festa de aniversário? Como falaremos de desigualdade social se as crianças são autoritárias com garçons e babás, com tanta naturalidade? É preciso SER bons pais pelo que de fato SOMOS. É essa nossa melhor chance de que os filhos sigam a rota. E ainda assim, o futuro não é de nosso domínio. Os filhos vão aprender com muito mais gente e experiências do que aquelas que conhecem em casa e na escola. É fundamental ampliar a vida cultural e social para uma formação diversa, equilibrada e bem desenvolvida, e convidando-os a pensar sobre cada experiência. Uma visita curta ao museu, com uma conversa afetiva e prazeirosa no final, pode ser mais significativa do que um dia todo de passeio pelos corredores do Louvre, se isso for uma obrigação.

Já mais crescidos, os filhos vão buscar felicidade fora da família, fora de casa e isso é rico. Desde que conheçam seu centro, saibam balizar as novidades com as suas referências fundamentais e possam avaliar que o novo nem sempre é melhor. O bom senso deve ser o imperador das suas vidas e das suas escolhas. Excessos, para qualquer lado, demonstram falta de contorno e de limites. É essencial ter senso crítico para reencontrar os novos equilíbrios. Muito se fala hoje em dia sobre as habilidades primordiais que as crianças devem desenvolver, desvalendo a escola da sua tarefa de informar. Mas pensar exige conteúdo, é a gasolina que gira a engrenagem intelectual. Mesmo os conteúdos memorizados são fundamentais, pois é a memória que define a nossa identidade e, em todo caso, só lembramos decor aquilo que queremos guardar no coração, certo?

Mas é verdade que a escola é o local do espanto, da curiosidade, da surpresa pelo conhecimento e, usar a memória (o que está no coração), é só uma forma de articular as matérias ensinadas. O professor, que tem sido apelidado de facilitador, não deveria facilitar coisa nenhuma. Pagamos para que eles sejam dificultadores, para que os filhos façam o trabalho pesado, como protagonistas do aprendizado. Se a criança tira nota baixa, isso pode ser um sinal de que foi ela quem não fez sua parte, não é?

Mas e os pais, nessa história? Que espaço sobra para nós, metidos entre os alunos e a escola? Nosso papel é dar apoio para tudo o que for estruturante, dar as bases do caráter e do pensamento, perguntar, se interessar mas não fazer por eles, estar próximos, informados, mas sem atuar em nome dos filhos. Supostamente eles repetirão os nossos bons hábitos enquanto descobrem e definem os seus próprios traços de personalidade. Um bom comportamento repetido torna-se uma virtude. “Eu não leio porque gosto, eu gosto, porque leio.” Porque sem solo para cultura, para cultivar o desenvolvimento dos filhos, não adianta semear.