Matutando sobre o gênero dos nossos filhos

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Vivian Wrona Vainzof

Bebê nova na família, minha quarta sobrinha, quanta alegria! Já passei da fase 9 na escala tia e sigo contando. Chegou uma bebê linda, de traços delicados, que já nasceu com laço de fita cor de rosa e pó de arroz. Uma princesa! Uma boneca! De todas os irmãos, só eu fui ficar sem uma menininha pra chamar de princesa e para brincar de boneca. Deus não dá mesmo asa para cobra… Eu, que nunca quis pôr saia e jurei rebeldia eterna contra a meia calça, será que teria tempo de me redimir, agora? Aos 4 anos, brincando com a maquiagem da minha mãe, eu decidi, ali e para sempre, que aquilo não era pra mim…Será que eu teria outra chance? Como é que eu seria mãe de uma menina?

Quando eu era menina… bem, nesse tempo, quando eu era criança, acho que eu não era tão menina: cabelo curto, nada de fivela ou tiara, roupa sem fru-fru, He-man, carrinho, vídeo game e futebol. Esse era o meu mundo. Muito amiga dos meninos, eu me identificava mais com eles. Meus personagens eram eles, eu queria ser um deles. Mas nem por isso eu fui. Amadureci mulher e, com meus filhos, tive a chance de reviver a infância que eu gostava, do jeito que eu queria. Sem precisar me preocupar com os cabelos, os laços, os vestidos, os sapatos, a meia calça…

Mas precisava?

Verdade que meninos e meninas nascem com personalidades distintas, mas ninguém nasce mesmo igual a ninguém. E os esteriótipos estão tão exagerados… Brinquedos estão separados por gênero, roupas estão categoricamente separadas por gênero, desenhos animados e personagens estão separados por gênero, até as cores do arco íris, hoje em dia, têm indicação de gênero. Vontades e gostos pessoais estão cerceados pelos padrões da sociedade e eu acho uma pena. Não sei se pena é elemento de menino ou menina, mas num momento onde a psicanálise reconhece mais de 17 gêneros diferentes, acho que essa tendência aponta para um grande problema pela frente.

Eu gosto de ver a descoberta das crianças nas suas escolhas mais arriscadas, na sua ingênua transgressão. E atualmente, arriscado é não deixar menino gostar de rosa, cuidar de boneca, preparar comida de mentira ou de verdade, é menina não poder torcer no estádio, andar de skate, lutar esgrima com ou sem laço no cabelo. No fundo são apenas crianças sendo crianças, sem precisar de coroa nem de instrução para ser o que são. Sem pensar no que se espera delas. Sem pensar no que seriam ou, bem lá longe, ainda serão.

Enquanto isso, mães esperam que pais ajudem com os filhos e com a casa, que sejam sensíveis e compreensivos, pais esperam que mães sejam parceiras, corajosas, autônomas. O contrassenso virou senso comum.

E ainda chamam de bom senso.