Num sussurro

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Vivian Wrona Vainzof

Era segunda feira e a preguiça veio festejar seu dia universal. Deitou na cama e cobriu-se, adiou o despertador em dez minutos mas não levantou. Quando o menino tentou abrir os olhos, ela tapou o rosto dele com as mãos frias e amarrou seus pés um no outro. Seria difícil demais começar o dia.

A mãe foi abrindo a janela e o sol forte deixou a preguiça mais eriçada, ela se enrolou toda no corpo da criança que não conseguiu se mexer. A paciência, ao contrário, que não costuma chegar cedo para trabalhar às segundas, sobretudo na casa das mães com crianças pequenas que entram cedo na escola, de fato não apareceu. A mãe encontrou seu estoque vazio, depois de um final de semana com filho doente e umas outras preocupações. Ela puxou o cobertor dele, levantou o tom de voz, achou que a preguiça voaria longe, para voltar no final do dia, esperando de braços abertos para deitar com o garoto no colo de Morfeu.

Mas sempre que a paciência não vem, a preguiça chama reforços e a raiva veio à galope. Ele gritou. Ele esperneou. Ele disse que não ia a escola. Foi difícil vesti-lo, foi impossível acalma-lo.

E a mãe, desprovida até aquele momento de suas doses de paciência acumulada, também estourou, disse o que não queria, fez ameaça. O dia mal começado já ia de mal a pior.

No carro, o silêncio ficou carregado. Os olhos faiscavam. Era esperar a paciência dar as caras para tentar reverter o quadro instaurado, o que poderia acontecer só amanhã, a mãe pensava.

Mas quase chegando à escola, bateram na janela. De mansinho, sem medo, sem anunciar, o menino abriu uma fresta para ventilar a convivência pacífica, que entrou descalça e sentou-se ao lado dele no banco de trás. Ela cochichou alguma coisa no ouvido dele, que ele repetiu, em sussurro:

  • mamãe, já estou melhor agora.

E plantou um beijo no rosto dela, enquanto ela sorria sem nem saber.