O belo fundo do poço

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Vivian Wrona Vainzof

Se conheço Paris? Ah, claro!, já estive lá. Me hospedo sempre na Rive Gauche, que é a área mais top… Pelo menos foi isso o que me disse a minha tia, da primeira vez que eu fui. Depois voltei mais uma vez, mas me recomendaram a Etoile, que eu mega gostei. As duas regiões são muito eu, sabe?...

Roma? Conheço! As escalas que fiz por ali eram tão longas que foi possível conhecer tudo! Visitei a Fontana di Trevi, o Coliseu, a Piazza Navona…

Barcelona, Zurich, já fiz também! Era tanta demora para trocar de avião que visitei a cidade inteira, nem preciso voltar.

A vida é curta demais pra gente perder tempo, certeza! Não vou ser jovem para sempre, vamo combiná?...

O importante é viver aqui e agora, extrair o máximo de cada momento, e partir pra próxima. Meus pais não entenderam nada desse papo, eles acham que isso é “raso”. Mas e dai? Quem tem que achar alguma coisa da minha vida sou eu e sabe o que eu acho? Acho que essa história de aprofundar o assunto é uma chatice. Brisei. Se dá pra ser feliz agora, quem ia querer adiar? Tô suave na nave, numa boa na lagoa…

Semana passada fui visitar minha prima Beth que teve neném. Essa aí não tá nada boa. A bebezinha é tudo de fofa, mas coitada da Beth, pelamor, ela estava o ó! Quando eu for mãe, não vou querer chegar no fundo do poço assim, já vou avisando!... Deprê! Ela não tem mais vida? Bebê chora, ela chora, bebê ri, ela ri, bebê dorme, ela dorme, bebê mama, ela ri, chora, dorme, chora e ri. Fim. Depois começa o ciclo outra vez. E olha que ela tem uma enfermeira mara, mas quer fazer tudo sozinha! Por que não deixa a moça resolver a parada pelo menos de madrugada? Muito louca… Com o mais velho dela já foi assim, ela parou a vida pra cuidar da criança, falava que o mais importante era filho crescer perto da mãe, demorou anos para pôr o menino na escola, queria ouvir todos os gugu-dadás que ele já disse na vida, sentava na areia do parque a manhã inteira, aguentava birra de tarde e passava a noite em claro quando ele tinha pesadelo, e ainda dizia que estava plena… Meodeus, se isso é a plenitude da vida, tô sussa de ser mãe… #prontofalei

Minha pegada é bem outra! Só vou ter filho um dia se tiver estrutura. Quero curtir meus filhos, e não me estressar com eles, fala sério! Posso até dar de mamar, óbvio, vou levar no clube, posso dar o almoço se eu estiver em casa, só não quero a obrigação, entendeu?

Bom, eu não sei se entendi muito bem… O que é conhecer sem experimentar com todos os sentidos, com o coração e o estômago? Como viver de verdade sem se transformar? A maternidade me mudou para sempre, me chacoalhou por dentro, apagou tudo o que eu sabia, me encheu de medos, de desafios, de instabilidade, mas também de coragens e de vontades. Alterou minhas verdades.
Viver com suavidade é bom. Ficar à toa é delicioso. Mas se a nave não puder decolar, ou se a lagoa nao puder me molhar, troco tudo por um verdadeiro e profundo mergulho no poço. Fechô?