O paraquedas vai falhar

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Vivian Wrona Vainzof

Houve um tempo em que achei que poderíamos falhar. Trabalharíamos para que esse risco fosse o menor possível na busca da perfeição, torcendo para que não acontecesse. Fiz o desfavor e o desserviço de contar isso aos meus filhos e colho os frutos de uma educação exigente demais.

Quem salta de paraquedas sabe que paraquedas falham. A preparação deve ser rigorosa, claro, mas a chance está sempre lá, mais cedo ou mais tarde, em algum lugar e de alguma forma, o paraquedas vai falhar.

Eu não salto de paraquedas.

Escolhi não correr esse risco e também não viverei essa emoção. Sem risco não há experiência.

Mas salto todos os dias no paraquedismo materno e minha perspectiva, hoje, é a de que nós vamos falhar. Mais importante que saber disso é perceber que nossas falhas - e não nossas conquistas - é o que nos faz humanos. A única chance que temos de evoluir e amadurecer é não conseguindo.

Quer dizer que sou indiferente ao erro? Que menosprezo o sucesso? Evidente que não. Mas entendi que as fraquezas nos constituem.

Tenho um filho que não chutava no gol. Menino habilidoso, com futebol correndo nas veias, mas que, em momentos decisivos, por medo de falhar, se privava de acertar. Ele precisou de anos para juntar coragem e bater um pênalti. Quando sentiu-se pronto, artilheiro do time, oras!, encarou. Respirou fundo, olhou para um canto e chutou no outro, forte e rasteiro, mais rápido do que o goleiro podia chegar. A torcida segurou o ar e assistiu à bola correr por fora da trave… Ele chorou. Responsabilizou-se pelo resultado do jogo. Eu quis chorar também. Nos abraçamos no final da partida e expliquei que ele estava pronto! Porque é impossível marcar gol sem chutar.

Também chorei por todos os erros, meus e dele, que ficaram sem abraço.

Eu já tentei ser supermãe, mas escolhi guardar minha capa, tirar a máscara e ser apenas mãe. Aquela que atrasa, que esquece, que não sabe, que cansa, que chora, que se engana, que comete injustiças, que não quer agora, que não entende, que não pode, que não tem certeza. Me dei conta do peso que é isso nas costas dos filhos, crescendo sem poder chutar no gol.

por Vivian Wrona Vainzof .

Formada em Administração de Empresas, estudante de Psicanálise e mãe. Sócia-fundadora do Matutaí, um lugar de encontro para repensar e cuidar da educação dos filhos e das relações afetivas.