O preço da maternidade

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Vivian Wrona Vainzof

É curioso ver tantas mulheres abdicando dos seus cargos profissionais e voltando para casa para se dedicar à família e principalmente aos filhos. Um estudo recente, publicado pela revista NYtimes, sugere uma resposta para justificar esse movimento que vem crescendo nas últimas décadas: o empenho e o esforço de criar os filhos ocupa toda a sua capacidade de entrega. Nos EUA, mais mulheres do que homens têm diploma universitário, elas estão em posições que já foram restritas a eles e é comum que adiem o casamento e a maternidade para se dedicar à carreira e, mesmo assim, o número de mulheres no mercado de trabalho não aumenta desde a década de 90. Olhando de perto, outro fenômeno se descortina nas últimas décadas: a maternidade tornou-se um trabalho mais exigente. Os pais, e principalmente as mães, estão sentindo que subestimaram o custo desta decisão. As famílias gastam mais tempo e dinheiro com filhos, do que jamais se gastou. Sentem-se muito mais pressionados a acertar, a ser “bons pais”, a garantir o sucesso e a satisfação das crianças. Isso sem falar na preocupação com a alimentação desde a amamentação, com os brinquedos e os estímulos, com a vigilância das relações sociais, dos estudos, dos resultados e de todos os seus passos e escolhas.

O estudo tenta decodificar esse sentimento de estresse que tem origem na combinação de longos dias de trabalho com inflexibilidade de horário, e as demandas familiares que vão desde jantares em família até o cumprimento das regras de uso dos eletrônicos.

Depois da chegada do primeiro filho, a volta das mulheres ao trabalho formal, como faziam antes de ser mães, sofre uma queda importante, segundo os pesquisadores. A escolha, muitas vezes, não era planejada, ao contrário da opção de ser mães. A maior surpresa apontada pelo estudo é que, depois de vestirem as “pantufas” da maternidade, as crenças femininas mudam drasticamente junto com seus planos, no que tange os papéis de cada um na família.

A pesquisa concluiu que o maior choque de realidade frente aos desafios de ser mãe acontece entre aqueles que menos se espera: as pessoas com mais altos graus de escolaridade, que tiveram filhos mais tarde, que são filhos de mães que trabalharam fora de casa e os que assumiam publicamente sua intenção de seguir a carreira.

O assunto dá pano pra manga. Ser mãe dá trabalho, exige uma cota de tempo, paciência e altruísmo que eu nunca desconfiei ter. E ao mesmo tempo, requer consciência e distanciamento permanentes, para não passar da linha, não sufocar, não ocupar todos os outros papéis que alguém, mesmo sem trabalhar, pode ou quer ser.

O estudo é um alerta. Ascende uma luz que indica o desequilíbrio da nossa vida atual. Tudo está tão excessivo: trabalhamos demais ou cuidamos demais, e os filhos, acima de tudo, querem ser filhos demais. Como será que serão, quando forem eles, os pais? E nesse dia, o que podemos imaginar que serão os filhos?

*esse texto é uma tradução livre baseada na reportagem de Claire Cain Miller, publicada em 17/8/18