O registro da nossa viagem

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Elisa Roorda

Pouco antes de zarparmos para a nossa aventura pelo mundo, comecei a me preocupar com o registro dela. Quem me conhece sabe que eu dificilmente faço registros. Desde sempre. Me entrego tanto ao momento, ao aqui e agora, que não chego nunca no registro. Sempre foi assim, desde a época da faculdade em que viajávamos em turma. Eu nunca registrava nada, mas depois pedia os negativos (lembra??) pra fazer cópias das melhores fotos. Porque apesar de não querer perder o momento registrando, sempre achei muito legal poder relembrar tudo que passamos de gostoso depois.

No meu casamento foi igual. Não quis contratar ninguém para filmar para não estragar a cerimonia e aquele momento mágico e maravilhoso. Se não fosse o amigo mais do que especial Pedro Gorski nos dar de presente uma filmagem feita por ele e um assistente, eu estaria chateada até hoje. Vimos e nos emocionamos tantas e tantas vezes com o vídeo, que não sei o que faria sem ele.

Nunca postei nada também nas redes sociais. Por não ter muito tempo e achar que ele é muito precioso para ser gasto com isso. Mas então, como registrar esta aventura linda e manter os amigos e família perto da gente durante este tempo? Qual seria a melhor forma de registrar? Tive que fazer as pazes com as redes sociais e encontrar um equilíbrio entre o registro, a postagem e a vida. Não dá pra perder muito tempo com isso. Mas como vai ser bom poder rever todos estes momentos depois!

O Flavio, meu marido, foi além. Resgatou a paixão por câmeras antigas e logo na primeira parada já comprou uma câmera da década de 70 para fazer as melhores fotos que já vi. Mais do que isso. Ele diz que com esta câmera, ele vê e sente melhor cada momento. Ele precisa analisar com cuidado o que vai ser fotografado, a luz, o que está acontecendo e acertar o momento exato. E só esperar pra ver quando achar um lugar para revelar o filme. Dá pra pensar em situação melhor do que essa para aproveitar o aqui e agora e ainda treinar a paciência e ansiedade? É um exercício que vale a pena. São fotos com história, sentidas com muita emoção e que nos transportam de volta àquele momento. Não são fotos vazias feitas com pressa pelo celular, como a que vimos um dia que fomos visitar um templo em Kyoto. Lá estávamos nós sentados, apreciando o lugar, o momento e o lugar e, de repente, uma pessoa chega, tira uma foto rápida com o celular sem ver muito e vai embora. As crianças nos olharam sem entender nada. Uma delas ainda comentou: “Mas ela nem viu o que fotografou!”.

E como lidar com esses registros com as crianças? Elas não estavam acostumadas a me ver registrando nada e logo se empolgaram. Quando percebi, também estavam pegando o celular para registrar vários momentos e sempre pediam para ver a foto ou o vídeo depois. Não consigo explicar aqui o incômodo que eu sinto com isso. Sempre terminava brava, tirando o celular da mão delas e decidindo que não fariam mais nenhum registro. Nunca gostei de ver o registro tomando conta do momento mais do que o próprio viver daquele momento. Mais do que isso, o “ver depois” também me incomodava demais. Justamente porque o registro acabava roubando aquele momento.

Na minha infância não tinha isso porque a gente tinha que esperar revelar o filme pra ver alguma coisa, então não tenho registro de como lidar com isso, mas simplesmente me incomodava. Até me deparar com um texto compartilhado pela minha nova amiga holandesa, Esther, com um artigo do NY Times , explicando como o “playback” imediato pode distorcer a memória que fica do momento. Se vemos o registro imediatamente após o acontecido não temos tempo de registrar o momento com a nossa memória, com o nosso filtro, que pode ser muito diferente da de outra pessoa. A gente acaba vendo o momento por um terceiro e o registro fica distorcido. Tão bom quando nossa intuição é respaldada por sérios estudiosos cheios de explicações, e base científica! Agora fico mais segura de dizer não pra elas e de explicar minha reação de mãe louca para os outros ;-)

E de vez em quando nos juntamos e vemos os melhores registros de cada lugar e vamos lembrando de tantas histórias e momentos gostosos. E em algum momento, juro, vou conseguir organizar todos os registros mais lindos para que tenhamos essas memórias vivas por muito e muito tempo.

A Elisa está ha quatro meses viajando o mundo com a família. Leia aqui os textos da coluna Sabático pelo mundo em família, escritos por ela.

por Elisa Roorda em colunas, Sabatico pelo mundo em família.

Elisa Roorda, 39 anos. Mãe orgulhosa de 3 criaturinhas: Nina, Sofia e Martin. Publicitária pela ESPM, e dona de uma carreira abandonada na área de marketing esportivo. Fundadora do Mamusca, um espaço mágico que segue funcionando nas mãos de outras fadinhas. Pregadora do livre brincar, da conexão, da presença, do encantamento pelo mundo. No momento viajando o mundo com toda a trupe.