“O touro Ferdinando”: a tradição, o presente e o futuro

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Talita Pryngler

O filme é totalmente inspirado na fábula “O Touro Ferdinando” publicada em 1936 pelo autor Munro Leaf, logo após o fim da Guerra Civil Espanhola. A história conta a trajetória de um touro que fora criado para brigar nas touradas espanholas, mas que preferia cheirar as flores e admirar as paisagens demonstrando uma postura pacifica, inclusiva, cooperativa e não violenta entre os animais e também com as pessoas.

Desde de filhote Ferdinando pensava e agia diferente dos outros touros, enquanto todos sonhavam em um dia serem escolhidos para enfrentar um toureiro em uma arena, ele queria apenas admirar a natureza e ser livre. Até que um dia seu pai, o touro mais forte, é escolhido e ele o vê partindo convicto que voltaria vitorioso da batalha com o toureiro. Quando o pequeno touro percebe que seu pai havia morrido e que esta seria a sina de todos os outros, ele foge em busca de um destino diferente.

Felizmente é encontrado por uma família onde a menina Nina o adota como touro de estimação. O tourinho cresce cercado de amor, natureza, brincadeiras e flores. Já grande e forte, por acidente, é interpretado como um touro bravo e destruidor, quando então é capturado e levado de volta para o lugar onde nascera reencontrando seus antigos “rivais” sedentos para serem escolhidos para a arena.

É muito interessante como o filme retrata a visão pacificadora de Ferdinando, ele “peita” os que o consideram um rival e busca enfrenta-los dando um passo atrás, tirando seu corpo grande e forte do confronto, se abrindo com confiança para uma outra maneira de se portar e olhar para a vida. Dando um passo atrás, ele faz com que uma arena inteira dê um imenso passo a frente, fazendo “girar” o sentido de uma manifestação cultural tão reconhecida. Nos diálogos com os outros touros ele também insiste em mostrar, agindo de forma cooperativa, que não precisam ser rivais e que podem viver de outra forma, para além da ilusão de um dia serem vencedores, o que na verdade só os aprisiona.

O filme aponta para algumas reflexões muito atuais como a aceitação da diferença, a liberdade de viver seu próprio caminho, apesar da expectativa dos outros e de tradições, e, principalmente, a questão da cooperação. O futuro dessa nova geração de crianças e jovens será marcado por essa diferença fundamental na educação. Os mercados de trabalho e a vida em sociedade cada vez mais tenderão a um formato cooperativo e colaborativo no qual a competição e a necessidade de derrubar o próximo, visto como rival, dará lugar a relacionamentos onde os outros poderão ser considerados multiplicadores de potencias. Isso só será possível se o estranhamento, o julgamento e o medo encontrarem espaço de diálogo e reflexão, permitindo de fato que as diferenças sejam incluídas, aconchegadas e celebradas.

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por Talita Pryngler em colunas, experiências, Para Gostar de Ver.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.