Obrigação de criança

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Vivian Wrona Vainzof

Criança que nunca come açúcar, quando tem chance, tira a barriga da miséria, já vi comerem direto do açucareiro, sem usar colher.

Às vezes a obrigação vira aversão ou a proibição vira fissura, e os pais lá, no fio da navalha…

É obrigatório ir no aniversário da tia-avó?

É proibido ver televisão antes do banho?

Torcer por outro time no futebol, pode?

Fui boa aluna desde pequena, organizada e responsável com meu material e minhas lições de casa, era orgulhosa dos meus trabalhos e minhas notas. Nunca precisei de cobrança para me dedicar à escola. Talvez por isso, não ouvi que essa era a minha única obrigação.

Outros pais diziam isso aos filhos. (Até hoje, não sei se era verdade). Uns passarinhos na minha cabeça até hoje me azucrinam entre a piedade e o mistério sobre aquelas crianças que tinham só essa e mais nenhuma obrigação, enquanto eu, obediente e preocupada, me disciplinava para cumprir com meus deveres.

Então aquelas crianças não tinham que escovar os dentes? Não tinham hora de ir para a cama?

Então nas outras casas podiam assistir TV o dia todo? Será que não tomavam banho ou remédio, se não quisessem?

Então outras crianças podiam comer chocolate mesmo se não tivessem comido verdura?

Será que elas tinham que cumprir os combinados, os horários marcados?

Será que falavam “com licença”, “por favor” e “obrigado”? Falavam palavrão?

Eu tinha que cortar as unhas, tinha que usar protetor solar, tinha que lembrar de apertar a descarga e lavar a mão com sabonete, tinha que dar a mão para atravessar a rua, tinha que jogar os jogos conforme as regras, essa era a regra do jogo.

Essas crianças não tinham a obrigação de respeitar as pessoas, de esperar sua vez, de aceitar as derrotas, de falar a verdade?

Será que a escola era mesmo a sua única obrigação?

Crescida, essas minhas obrigações se transformaram numa espécie de manual de instruções: não é imprescindível ler, para fazer bom uso, e não se sabe ao certo de quem é a autoria, mas é sempre bom guardar o conteúdo para consultar em caso de dúvida ou impasse.

Cada família faz o seu, não tem certo ou errado, não tem só um jeito e também há exceções, claro, o que só embeleza a regra. Educar é isso.

Seja como for, bom lembrar que não tem essa de “única obrigação”.

Educar é um calhamaço.