Os benefícios de brincar com Lego e as obras primas

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Vivian Wrona Vainzof

Eu lia a matéria no A mente é maravilhosa sobre os benefícios de se brincar com Lego.

O jogo de montar, segundo uma psiquiatra espanhola, traz benefício psicológicos, desenvolve a inteligência emocional e auxilia em processos psicoterapeuticos. Até como ferramenta de resolução de conflitos, em trabalhos de coach empresarial, a autora do artigo usa os bloquinhos coloridos.

Mas será?

Fui na estante ver as últimas obras construídas aqui em casa. As mais incríveis que meus filhos fizeram recentemente foram a estátua da liberdade, um templo chinês, o arco do triunfo, um ônibus espacial da NASA…

Talvez a ideia original era a da construção livre, numa dinâmica de representações que estimula nosso sistema de emoções e crenças. Mas por que eu não via a longa lista de habilidades sócio emocionais escorrer da estante, pingando de cada peça?

Ora, se brincar de Lego é uma atividade que promove a criatividade e dá vazão para a imaginação voar solta, bravo. Montar seria a oportunidade para cada indivíduo oferecer uma pequena amostra sobre como enxerga o mundo. Seria, ainda, a chance de derrubar barreiras intransponíveis na vida real e se descobrir. Mas quem senta com uma sacola de peças avulsas, sem divisão em saquinhos numerados e começa a juntá-las, sem destino certo?

A pesquisadora continua sua argumentação sobre o desenvolvimento da inteligência emocional pela construção, como um excelente campo de expressão do abstrato e sintetização do complexo.

Mas não deve ser dessas construções arquitetônicas impecáveis, que ela está falando… dessas que seguem instruções passo a passo, sem espaço para errar, subverter e inventar. Não deve ser sobre as obras primas expostas na estante como se fosse arte, que ela está falando. Com a diferença que estas obras de arte não foram sonhadas, traduzidas e paridas como criaturas. São reproduções montadas, peça por peça, sem necessidade de recurso sócio afetivo.

Em tempos de produto e não de processo, em tempos de resultado e não de significado, talvez Ole Kirk Christiansen, inventor desse jogo lendário e tão valoroso, ficaria um pouco chateado por ver que sua ideia das peças em múltiplas combinações tenha se resumido a obras na estante, coladas para sempre, para não desmontar. É o contrário do plano, é o oposto do desenvolvimento emocional, é a cara da sociedade que esqueceu como brincar.

Montando uma obra de arte
Montando uma obra de arte