Os encontros do brincar no tanque de areia

avatar de Talita Pryngler
Talita Pryngler

Um fim de tarde de domingo, com a luminosidade de outono, ali na praça do Sesc Pinheiros em São Paulo era o cenário da vida que compunha o “palco” para o teatro de animação de bonecos Pés Descalços, do Grupo Morpheus. Estar ali num espaço público com aquela luz natural assistindo a um espetáculo de manipulação de bonecos realizado com tamanha sensibilidade, destreza e beleza foi um grande presente que São Paulo nos proporcionou. Fez sentir que existe amor nesta cidade e que há lugar para arte e a cultura da infância.

Tínhamos assistido, duas semanas antes no teatro Alfa, outro espetáculo do mesmo grupo, o Berenices, e já havíamos sido imensamente impactados pela expressividade e realismo que a manipulação realizada com tanta habilidade trás aos personagens.

“Pés Descalços” retrata uma cena cotidiana da infância, o encontro de duas crianças muito diferentes no tanque de areia. A areia, esse elemento tão comum e estruturante para o desenvolvimento psicomotor dos bebês e das crianças, é um instrumento polisensorial e dinâmico que acompanha os gestos e movimentos do corpo, traz contorno e a possibilidade de se transformar em diversas coisas como comidinhas ou castelos. Podemos aglomerá-la ou espalhá-la conforme o desejo e a necessidade. Podemos atuar com a areia porque ela “atua” sobre nós.

Voltemos ao espetáculo “Pés Descalços” e ao encontro das duas crianças no tanque de areia. Uma delas é uma garotinha muito extrovertida, falante, criativa que se entrega para o brincar e para os encontros, chamada Florência. Já Rodolfo, é um garotinho tímido, introvertido que “prefere” brincar sozinho de forma mais concreta e que não gosta de tirar os sapatos na areia. Nesse encontro as diferenças e estranhezas saltam aos olhos, os códigos do brincar parecem que não conversam. Para ele os brinquedos propõem um brincar concreto, cada peça no seu lugar, tendo apenas um único modo de brincar. Não há a possibilidade de criar, resignificar ou construir um enredo, os objetos representam algo, e seu brincar é estereotipado e rígido. Para Florência o brincar é muito rico e abundante, ela se vale dos objetos e também de seu corpo como próprio brinquedo. Para ela os brinquedos têm vida e vão ganhando diferentes significados conforme seu desejo. Seu universo simbólico é muito criativo.

Florência e Rodolfo, depois de uma tarde intensa de aventuras, se tornam melhores amigos. Ele se abre, tira seus sapatos e se entrega para sentir os pés descalços na areia.

Assistir ao brincar florescer, ampliar-se, iluminando-se numa abertura de possibilidades e sentidos para uma criança e, muitas vezes também para um adulto, é algo majestoso e potente. Este “espaço psíquico” onde o brincar, a arte e a criatividade podem existir é o “lugar” que resguarda a nossa capacidade de nos recriarmos constantemente diante dos necessários movimentos de transformações e crescimentos da infância e da vida.

Tenho sido tocada fortemente por crianças como Rodolfo que a partir do encontro genuíno com um outro, num campo afetivo seguro, vão se permitindo experimentar. Seu mundo interno se expande, sua corporeidade acompanha esta expansão e o brincar partilhado com as outras crianças passa a ser cada vez mais natural e prazeroso. Por mais encontros nos tanques de areia!

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.