Pão nosso de cada dia

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Vivian Wrona Vainzof

Todas as mesas tinham uma fatia de pão, ou mais. Pães inteiros também, macios e perfumados só de olhar. Bem do meu lado, uma moça muito seria, de óculos pretos de aro grosso comia sem prato, em cima do computador. Se eu fosse ela, também abriria mão das migalhas e fingia que não percebia, só para que ele não passasse vontade, já que era a sua única companhia ali.

Já eu, estava bem acompanhada, mas confesso que a conversa ficou em suspenso durante algumas mordidas, porque as caras e bocas disseram tudo por nós.

O chef Gusteau, no filme Ratatouille, tinha uma sabedoria linda sobre pães: que eles cantam para dizer que estão prontos. Acho que se referia àquele crec sedutor que faz a casca mais dura, antes de cortar. Que faz a boca começar a aguar. Algo assim.

Não sou especialista em canto e nem em pão, mas me aventurei numa oficina panificadora recentemente. Era um curso para mães. Algumas levaram seus bebês, dois pequerruchos apaixonantes que desviaram minha atenção de cima da mesa. Criança que brinca com qualquer pedaço de coisa, que circula entre desconhecidos e sorri sem restrição, é mais sedutora que pão quente. Derreti feito manteiga. Mas também misturei, sovei, enrolei, trancei, untei, esperei e provei. E a conversa em volta da mesa, em volta da massa, da sova e da espera, foi tomando forma e foi dando voz àquelas mulheres, a maioria mães frescas, biológicas e naturais como a nossa receita do dia. Quem puxou essa conversa foi a Nivia, psicóloga e, por enorme coincidência, cantora também. Ela dizia que mães no puerpério são como os ingredientes separados antes do preparo. Sabores avulsos, sem contato com nenhum outro. Voltei aos dias sem contorno, quando tentava reconhecer minhas partes mulher, amiga, profissional ou qualquer outra, mas todas elas, partes sem todo.

E a partir daí, fomos construindo a imagem do pão como as mães de bebês, que precisam tanto de cuidado, de estímulo e de apoio para se tornar mães. O pão que não é trabalhado não cresce, não nasce, não vinga. Gostei também da alusão ao forno quente, não apenas como referência a uma casa calorosa, mas principalmente à rede de apoio, que recebe e espera. Não há maternidade saudavelmente possível se não houver aquecimento no entorno.

E de repente, o cheiro de pão tomou conta de tudo. Fermentou e assou, saiu corado e dourado, pronto e lindo.

Comemos com manteiga, com pesto, puro ou com outras coberturas. As cores da vida são muitas, cada um pinta a sua.

Fui embora de lá pensando na transformação que vivemos depois de ser mães. Como uma xícara de farinha, um ovo, uma colher de óleo, sal, açúcar, alecrim e maracujá, viram uma massa homogênea, consistente e cheirosa. Como saímos de migalhas e vamos nos tornando seres maiores, mais uniformes, mais bem distribuídos, mais crescidos, apensar das incoerências do que nos movimenta e nos fermenta.

Há pouco tempo tirei o pão do meu café da manhã. Que saudades de outrora, quando a mesa estava completa, quando minha primeira refeição do dia era plena. Mas ainda me permito mexer, temperar, arejar, descansar e poder crescer.