Perfeita imperfeição

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Vivian Wrona Vainzof

Uma ideia desponta no recanto mais fundo da minha cabeça. É uma ponta de ideia, que ainda não deu as caras, mas já começa a me cutucar. Ela me chama, me acende, preciso escrever, preciso escrever.

Mas um texto pra ser texto meu, vivo e inteiro, precisa de muita dedicação para nascer. Não levo nove meses para gestar cada escrita, mas pôr um desses no mundo é um parto para mim. Quero que ele seja inteligente, delicado, bem humorado, simpático, corajoso, lindo e mais um sem-número de qualidades. Não canso de reler, de rescrever e de botar desejo de perfeição, de imaginar seu rosto ao vento, correndo mundo. Não canso! E se publico, ainda continuo lambendo a cria, revejo, remexo e sonho com o irretocável.

Que obsessão pelo texto perfeito… Seria coisa de escritora, ou paranóia de mãe?

Mas é possível amar o imperfeito?

Um casal de amigos meus saiu do consultório médico, anos atrás, dando as mãos para o filho, 5 anos, como se carregassem o túmulo dele. Não sabiam como digerir a novidade: o filho precisaria usar óculos. Acompanhei de perto uma angústia que não me fazia sentido, já que fui a menina que sempre quis usar aparelho nos dentes, engessar o braço e usar óculos! Ainda demorei uns dias até compreender que tudo não passava de uma enorme dificuldade em admitir que, se o filho era míope, ele não era perfeito. Mas míopes estavam os pais, que passaram a ver um borrão de filho onde antes viam uma pintura. E como amá-lo da mesma maneira? Ou melhor, de outra? Assisti a um documentário na TV, onde o artesão falava sobre as mesas que fazia em madeira e a frustração por ver pessoas trazendo mesas antigas para restauração, porque estavam manchadas. “Mas essas manchas contam a história do móvel”, ele dizia, “essa é a essência da peça”.

As manchas davam às mesas uma beleza única, marcavam a história delas, as tiravam da condição de vitrine para ganhar verdade na cara. E a verdade é que a perfeição não chega nunca.

Nossos filhos nunca são exatamente o que sonhamos. São imperfeitos como somos todos, únicos, excepcionais, especiais a seu próprio modo e marcados pela história de vida de cada um. Mas são eles que nos chamam, nos acendem e nos convocam a ser os pais perfeitos. A viver acima de tudo, mais essa obsessão.