Pior cego é aquele que não quer ver

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Vivian Wrona Vainzof

Está tudo embaçado de repente…

Eu queria enxergar mais longe, queria poder antecipar o que é que vem pela frente. Mais que isso, eu queria avistar para onde vou, para onde estou levando meus filhos, o que dá contorno a isso tudo. Onde se escondeu o horizonte?

A nitidez saiu de férias.

Uma névoa turva anestesia os olhos quando tudo antes era tão claro, tão evidente, tão previsível. Agora só resta o incerto.

Os caminhos conhecidos tremem embaixo dos meus pés, ja não reconheço o que estava bem aqui.

Ao meu redor, vejo uma gente adunca, sentada em espera eterna, olhando a poucos palmos do nariz, com olhar vidrado, que vê um nada mais frenético e ocupado do que jamais se viu. Um nada disfarçado de tudo, que chamam de smartphone.

A vida vai tocando em frente, segue o rumo, passa mesmo desapercebida, rápida ou vagarosa, ela passa. E quem não parar para olhar, já viu…

O que vejo agora é apenas um vulto do que sei, um esboço do que ainda verei.

Mas não me falta paciência. Sei que a nuvem negra vai passar, que o céu vai se alumiar, sei que tudo se clareia para quem sabe esperar.

Eu aguardo a minha vez.

E nessa hora, menos atordoada e menos atormentada, escuto a recepcionista chamar pelo meu nome.

A minha pupila já começou a se encolher, eu vou poder voltar para casa tranquila depois de ouvir que, beirando os 40, a miopia não avançou.

Amém.

Mas olhando agora às claras, sem mais desculpas, preciso ficar ainda mais atenta pra não embaçar a vista, para não perder o foco e para olhar com nitidez aquilo que realmente importa.