Pontos e vírgulas

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Vivian Wrona Vainzof

Ninguém nessa vida é e ponto.

Todo mundo é uma coisa - vírgula - mais outra - vírgula - outra mais - vírgula - mais - vírgula - mais. Às vezes, depois de tanta vírgula, ou mesmo antes delas, colocamos um ponto final onde não havia ainda um fim.

Ontem, no derradeiro encontro de um ciclo sobre diálogos com os filhos, falávamos de rótulos. Digo derradeiro, porque prefiro não decretar o fim dessas noites tão boas, onde falamos de família e de nós mesmas e onde pudemos falar dos filhos sem decretar seus destinos. E vimos como as famílias sempre têm algum filho que é e ponto. Ou ele é teimoso, ou bagunceiro, ou avoado. Ou ela é a mais chorona da casa, ou encrenqueira, ou desorganizada, ou é implicante ou é isto, ou é aquilo. Ou isto, ou aquilo, ou isto, ou aquilo, no balanço de Cecilia Meireles…

Mesmo os elogios são quase sempre impressos nas testas, não só dos filhos. E com os outdoors pendurados para sempre, é difícil ser outra coisa que não aquilo a que se presta cada um, aos olhos de todos e dos seus também. Este é bonzinho, ele é bom aluno, ela é sorridente, inteligente, todos etiquetados para sempre e fim.

Mas - vírgula aqui - o que mais será que são? E, acima de tudo, o que mais será que poderiam ser e não são? Eu sou esquecida. Um pouco Dori, um pouco Caillou, mas nunca me esqueço disso! Um é determinismo, o outro é acaso… Se me lembro é sorte e se esqueço é destino? Não, não. É tudo isso, um depois do outro, antes, durante, com vírgulas nas pausas e sem elas, umas outras vezes.

Eu sou rígida com as crianças em casa, sou manteiga também, sou um pouco apavorada, entrego nas mãos de deus um tanto, confio, controlo, respeito, levanto a voz, cobro, acolho, exijo, desisto, vírgula, vírgula…

Reticências também podem suavizar os fins. Terminam sem concluir, finalizam sem acabar. Dá mais chance de continuar, de abrir passagem para todas as possibilidades.

E, fim…​