Por uma vida com prateleiras amarelas

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Vivian Wrona Vainzof

Desde muito nova eu soube que era apaixonada pelo caos de São Paulo, por 6a feira depois do trabalho, por abraço de matar saudades, por olhar de cumplicidade. Algumas coisas simples que tiram a insignificância da vida. Tem dia que me dou o luxo de ir sozinha em cinema de rua pelo puro prazer frugal. Compro uma revista na banca e sento comigo num café. Deixo o carro destrancado para achar que posso confiar.

De vez em quando, e mais ainda nas férias, me permito alguns luxos que nem sempre consigo quando a rotina cimenta os dias mais comuns. Há dias em que a cidade é mais cinzenta e que a cinza é mais sufoco e que o tempo mura as chances de muitos escapes.

Mas às vezes, acho uma fresta para um passeio sem destino e faço de São Paulo minha cidade interiorana, caminho daqui ali só para comprar uma barra de chocolate, mas o que quero mesmo é cumprimentar o mecânico da rua, o menino que trabalha há décadas na minha padaria, a costureira que passeia com o cachorro magricela depois que o sol se põe. Ela mora no sobrado da esquina, em cima da oficina. Às vezes ela me enxerga da janela mas não sei se me reconhece, porque eu aceno da calçada e espero a resposta, mas ela apenas sorri. São luxos que deixam a vida despida dos paetês que empapuçam os dias, se a gente deixar. E se a gente deixar, os dias viram concreto no nosso sapato, bem debaixo dos nossos pés.

Ontem, de férias, caminhava sem destino certo, de mão dada com filho, papo solto, livre da muralha do tempo, olhávamos as lojas da rua, os pedestres, os carros que sobem a ladeira apressados sem ver nada. E sem esperar nada, sem procurar coisa nenhuma, achei uma dessas coisas que tiram a insignificância dos dias e dão luxo na nossa vida.

Uma prateleira amarela, pendurada no muro que ja foi branco, na entrada da loja, convida os passantes à leitura generosa e compartilhada. “Leia, doe”. Você pega o que quiser e deixa, em troca, o que tiver. A prateleira se renova, os leitores se revigoram. Um passarinho verde, pintado no muro, escuta o pensamento de quem passa, só para cantar mais alto qual foi a emoção de cada um.

Achei linda a oportunidade de lembrar ao meu filho que a cidade de pedra não é selva, que o cinza de São Paulo tem muitas cores e que, por trás do concreto tem alguém, sempre.

Nem sempre prateleira e nem sempre amarela, contei a ele, naquele passeio, que a gente sempre vai se deparar com cenas, com ideias e com histórias que nos renovam e nos revigoram, que nos despem da crueza e da rudeza dos dias de cimento. E que precisamos estar de olhos bem abertos para não perder nada e poder viver o luxo desses dias em que caminhamos de mãos dadas, papo solto, vendo e sentindo tudo o que a vida tiver para dar, pra ler, pra doar.