Qual é o papel dos pais?

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Lia Vasconcelos

Não há dúvidas de que a forma de educar xs filhxs mudou muito nos últimos anos. Falo de um tempo em que as crianças não ousavam responder aos seus pais, elas simplesmente obedeciam. De acordo com o psiquiatra austríaco e um dos pais da Disciplina Positiva, Rudolf Dreikurs, a primeira grande mudança que testemunhamos recentemente é que os adultos não são mais exemplo ou modelo de submissão ou obediência. O pai obedecia ao chefe, a mãe ao pai, minorias aceitavam funções submissas que geravam enorme perda de dignidade pessoal. Hoje em dia, é raro (e que bom!) encontrar alguém que esteja disposto a aceitar um papel inferior e submisso na vida. E as crianças estão apenas, como diz Jane Nelsen no livro “Disciplina Positiva”, seguindo os exemplos que observam ao seu redor. Afinal, elas também querem ser tratadas com dignidade e respeito.

Outra grande mudança contemporânea, identificada por Dreikurs, é que as crianças recebem em excesso sem grande esforço ou investimento da sua parte, em nome do amor, e, com isso, deixam de desenvolver uma atitude responsável. Muitos pais e mães acreditam que o melhor que podem fazer pelxs seus filhxs é protegê-lxs de toda e qualquer decepção. A superproteção tira das crianças a oportunidade de desenvolver a capacidade de lidar com os esperados e normais altos e baixos da vida.

Diante desse cenário, fica a pergunta: afinal, qual é o papel dos pais e mães? Será que pais e mães mandam menos, hoje em dia? Certamente, temos uma geração de pais e mães em transformação em que não faz mais sentido responder à criança com um “porque estou mandando” ou um “porque eu sou sua mãe/pai”. Tanto para a Disciplina como para a Parentalidade Positiva, as crianças não desenvolvem responsabilidade quando pais e mães são muito rígidos e controladores, mas também não o fazem quando há permissividade. Como escreve Jane Nelsen, “crianças adquirem responsabilidade quando têm a oportunidade de aprender habilidades sociais e de vida valiosas para desenvolver um bom caráter em um ambiente de gentileza, firmeza, dignidade e respeito”.

De acordo com Magda Gomes Dias, autora de “Crianças Felizes”, “há uma série de razões que explicam porquê uma criança obedece naturalmente a um pai e outras tantas que explicam porquê não o faz. O que torna toda essa questão interessante é verificarmos que esses motivos pouco ou nada têm a ver com autoridade como a vemos tradicionalmente, mas sim com o sentimento de legitimidade que mora no pai e na mãe enquanto exercem sua função parental. É, pois, determinante que os pais se autorizem, antes de tudo, a serem os pais dos seus filhos”.

Ou seja, para que as crianças possam ser filhxs, nós temos que assumir o papel de adultos da relação. Parece óbvio, mas não é porque sermos o adulto da relação implica em ter verdadeira responsabilidade pela formação daquela pessoa. Aqui, vale pensar: o que eu realmente desejo para meus filhxs? Cooperação, mente aberta, habilidade de pensar objetivamente, respeito por si mesmx e pelxs outrxs, compaixão, entusiasmo pela vida, honestidade, cortesia, integridade, sabedoria interior, paciência, autocontrole, interesse em aprender, senso de humor, habilidade em resolver problemas….essa lista poderia ser infinita, né? Cabe, então, refletir se estamos cumprindo nosso papel como mães e pais no sentido de desenvolver essas tantas habilidades.

Para começar a reflexão, é importante saber que o que fazemos nunca é tão importante quanto o modo como fazemos. Isso quer dizer que o sentimento e a atitude por trás do que fazemos determinarão o como. O sentimento por trás das palavras está expresso no tom da nossa voz. Portanto, agir a partir de pensamentos e sentimentos negativos é uma garantia de se passar longe do respeito. Claro, somos humanxs e, portanto, não somos imunes a sentimentos negativos, ao contrário, eles fazem parte de nós. Mas, lembre-se: o sentimento não é ruim em si, precisamos é colocar nossa energia, com autoconhecimento e autorregulação, em como lidamos com esses sentimentos.

Outra maneira de encarar a parentalidade com responsabilidade é ver os erros como oportunidades para aprender. Do mesmo modo que é fundamental que ensinemos às crianças a experimentarem os erros como oportunidades para aprender, é preciso que sejamos exemplo e modelemos esse comportamento. Todo mundo tem seus momentos de reagir em vez de agir e a maioria de nós temos ótimas intenções – queremos ensinar xs pequenos a serem mais respeitosos, né? O problema é que, ao reagir, nos comportamos mal na nossa tentativa de ensinar respeito. Quando reagimos, estamos mais interessadxs em fazer a criança “pagar” pelo que fez por meio da culpa, da vergonha e da dor.

O bonito dessa jornada é que esse pode ser o começo, e não o fim. Não importa quantas vezes reagimos e nos esquecemos de usar todos os conceitos da DP, sempre podemos voltar a eles e recomeçar. Quando nos mostramos vulneráveis, percebemos o quanto as crianças podem ser generosas conosco. Ao aprendermos com o nosso erro, modelamos comportamento, somos exemplo e espelho.

por Lia Vasconcelos em colunas, Parentalidade Positiva.

Lia Vasconcelos é mãe de duas meninas e originalmente formada em Jornalismo e Ciências Sociais. Se encantou com os modelos da disciplina positiva e da parentalidade positiva e se certificou pela Positive Discipline Association (EUA) e pela Escola da Parentalidade (Portugal). Me encontre no @liavasco_educacao ou escreva para liavasco75@gmail.com para informacões sobre workshops.