Quanto tempo o tempo tem

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Vivian Wrona Vainzof

Ontem tiramos a tarde para chocolate.

O céu estava mau-humorado e choroso, mas não foi por isso que decidimos mudar a programação. Já estávamos prontos para sair, era só dar a hora. Uma espera curta de verdade. Mas um menino pendurado na estante conversava com bonecos menores que os dedos, com tamanha intimidade e eloquência, que eu não podia interromper. Estavam no meio de coisa importante, era evidente. Eu vinha avisando que a hora estava dando, mas quem me ouvia? E assim, adiei o fim do colóquio até não poder mais e então avisei que agora era hora de ir.

Ele me olhou com cara de chuva.

Eu quis esperar para sempre ele terminar de brincar, torci mesmo para não terminar nunca. Segundo Oliver Wendell Holmes, “a gente não para de brincar porque envelhece, mas a gente envelhece quando para de brincar”.

Em todo caso, alheio a tudo, o tempo passou agoniado e fui obrigada a emplacar o fato de que o atraso era inevitável, caso não saíssemos já.

Frustrado, ele me pediu que não fizesse ameaça e carimbou os pés no chão a caminho da porta.

Que o tempo nos ameaça implacavelmente, isso eu sabia e ele também. Que as escolhas são perdas, até ele já aprendeu. Mas olhar para o tempo de frente, com honestidade e com respeito a si próprio, ainda é tabu para quase todas as pessoas que eu conheço. E foi aqui que eu senti um vento escuso afastar as nuvens e abrir espaço para a pergunta, mais implacável ainda: o que vai acontecer se você se atrasar? E colocando suas coisas no chão, ele me respondeu, sem dizer nada, que preferia ficar em casa.

Com tempo de sobra, ele me perguntou se passaríamos a tarde toda juntos. Não havia mais nuvem no céu, pelo menos não no nosso. Dentro de casa o céu era de brigadeiro.

  • Podemos fazer um bolo! - ele sugeriu, ensolarado.

Eu tinha outros planos… Mas quem recusa um convite fora de hora?

No fim do dia, lambendo a massa de chocolate que sobrara nas pás da batedeira, eu raspava o tacho da minha tarde aquecida em fogo brando, desejando que ela não chegasse à última fatia.

E no entanto, “continuamos contando o tempo, temos a sensação de que o tempo se esgota. Mas ele é só uma medida abstrata. Vivemos num eterno agora”.

A sabedoria é de Alan Watts, além do meu filho. Ele só não soube, tão bem, formular.