Reflexões sobre “Os Saltimbancos”

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Talita Pryngler

Quem, nascido depois da década de 70/80, não se lembra da sua infância ouvindo aqueles disquinhos de histórias clássicas interpretados por grandes atores e músicos nacionais?

Os Saltimbancos” lançado no ano de 1977, foi um projeto composto por importantes nomes da música popular brasileira entre eles Chico Buarque, Nara Leão, Vinicius de Moraes e Miúcha. A inspiração desse disco aparece como uma adaptação da obra literária “Os músicos de Bremen”, criada pelos lendários irmãos Jacob e Wilhelm Grimm.

A história fala da união entre um grupo de animais com características e funções bem diferentes e que se rebelam contra a exploração realizada por seus patrões. Cada animal, através das canções, revela seus dramas geralmente muito atrelados aos lugares que lhe foram colocados, sendo necessários enquanto permaneciam produtivos e depois descartados ou renegados quando não mais obedeciam ou cumpriam o que se esperava deles. Ao mesmo tempo, neste momento de desamparo, elas são capazes de se apropriarem de seus desejos e seguindo seus sonhos se reúnem e ganham força para criarem um novo caminho e outros destinos. Os personagens sociais são representados ludicamente por um burro, um cachorro, uma galinha e uma gata. Cada um deles era explorado de alguma maneira especifica, até que percebem que é justamente esta característica a sua maior força. É então que com as suas diferenças se unem para se tornarem livres.

Se olharmos pela perspectiva das crianças há questões como união, solidariedade, justiça e diversidade que a narrativa dos saltimbancos consegue transmitir, dependendo da idade da criança e de quantas milhões de vezes ela já esteve em contato com as letras das músicas. Cada criança geralmente se identifica com um personagem e é muito curioso perceber quais falas que lhe chamam mais atenção.

Fomos assistir a belíssima versão interpretada pela banda Estralo na casa Natura Musical. Nesta versão a banda traz, com humor, bandeiras interessantes e atuais como a galinha com placas fazendo campanha “Go Vegan!” além da excelente qualidade musical colocando a casa inteira pra dançar e cantar estas musicas tão clássicas quanto atuais.

Imagino, que todos nós sabemos que “Os Saltimbancos” não é uma simples obra pensada para crianças e que a fabula representada pelos animais fala sobre o contexto histórico vivido no Brasil na época da ditadura militar. Ao falar sobre união, exploração e justiça a história dá voz a uma série de questões políticas que marcavam a época.

Eu particularmente já ouvi e vi as músicas e diversas montagens da obra em diferentes fases da minha vida, desde criança até a vida adulta e mais recentemente como mãe. Confesso que fiquei refletindo muito sobre as letras e principalmente sobre a complexidade da criação de cada personagem. Estamos num momento muito próximo das eleições, vejo a minha volta adultos muito preocupados com o futuro político do Brasil. No campo da educação e cidadania (sem entrar tanto nas questões sociais) o que mais temos trabalhado com as crianças e principalmente entre nós adultos é a aceitação da diversidade, o valor que existe nas diferenças e a potência que existe na união. “Os Saltimbancos” é tão atual quando a nossa necessidade constante de reflexão e reconexão com os nossos valores pessoais e sociais. Desejo que possamos perceber o quanto todos juntos somos fortes e que não ha nada a temer.

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.