Roda mundo

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Vivian Wrona Vainzof

Tem um dia na vida da gente, que a gente deixa de ser o todo dia da nossa vida. Ainda ontem, éramos piões saracoteando de um canto a outro, rodando num eixo que era só nosso e acreditando que quem girava era o mundo, só pra gente ver. Tempos de mocidade, de vivacidade atroz, de energia que parecia sem fim.

Mas chega um dia na vida que, se a gente vira mãe ou pai, passamos a ser corda. E aquela vitalidade do pião, a leveza de quem não precisa se preocupar muito aonde vai, nem como permanece em pé, se transforma em força motriz. Somos então os lançadores, as guias para outros giros. Podemos agora apreciar mais de longe… E quantos caminhos é possível avistar de fora? Quantas quedas poderíamos antecipar? Mas corda não pára pião. Não define todos os caminhos nem evita todas as quedas. Ela pode colocar ali suas melhores intenções, seus desejos, suas maiores verdades, seus valores, suas expectativas. A corda dá centro e sentido e depois sai de cena, ela não pode girar junto. O melhor que faz é admirar e a corda sorri só de ver o pião girar sem parar. E como é bonito de ver! Ele gira contente com a conquista. E se o arremesso foi consistente, o pião segue firme na pontinha do pé que segura seu corpo todo no chão, tão frágil e tão estável, tão vulnerável e tão seguro de si.

É mesmo lindo de ver… A corda se recolhe um pouco, sem se afastar demais. Ela repousa lá perto, logo logo pode ser necessária, mas só se o pião quiser. Ela vai estar ali sempre que o pião precisar se reerguer e restabelecer de novo o seu eixo. E de novo, e de novo.

Não acho que um papel seja melhor que o outro. Acredito que cada um tem sua graça na sua hora. Pais e filhos ora são espelhos, ora são seus avessos, ora caminham lado a lado ou podem ser distantes também. Depende muito de como amarramos a corda, de como lançamos o pião de como rondamos seus movimentos e como percebemos seus deslizes. Hoje eu sou mais corda do que nunca. O protagonismo não é mais tão meu na vida dos meus filhos. Mas como é bonito vê-los crescer, vê-los saracoteando por aí, bambeando, mas íntegros, com centro e com eixo.

É mesmo lindo de ver.​