Sem garçom para acudir

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Vivian Wrona Vainzof

Sentados à mesa, consulto o cardápio. Já sei o que vou pedir. Pergunto para as crianças o que acham deste prato aqui.

O garçom vem acudir:

- Vou trazer o cardápio infantil
- Não precisa, obrigada. - eu tento avisar. - Acho que eles vão querer um filé com fritas.

Ele não ficou para me ouvir. Trouxe os cardápios infantis cheios de atividades e uma caixa de giz de cera.

- Meninos, o que vão querer comer?

Mas eles já não estão mais conosco. Demora até eu conseguir chamar sua atenção para fora do ligue-pontos.

- Que tal pedir este filé?
- Eu vou querer este aqui: “bifinho com batatinha”.
- Para mim, este: “franguinho com massinha”,

Procurei a câmera escondida. Era uma piada, só podia ser.

Ter um cardápio próprio para os pequenos, na minha opinião, seria desnecessário, mas acostumei. Alienar as crianças da convivência em família, para mim, é uma pena. Mas oferecer o mesmo prato, com tradução simultânea, é além da conta. Um para adultos, outro para bobos?

As crianças não são pequenos adultos, eles têm outro paladar, outro apetite e outra paciência, eu sei, eu sei.

Mas não entendo a idiotização das crianças.

Por que a subestima?

Existe a expectativa de que um dia cresçam. Não é a minha. Porque eu os vejo crescer todos os dias. Eles fazem provocações surpreendentes, trazem percepções emocionantes. Vale a pena pagar o preço de assistir a tudo isso de camarote.

A infância não acaba num degrau.

Adolescentes não serão pessoas interessadas, se a vitalidade das crianças tiver que caber num almoço silencioso.

Esses caras estão cheios de histórias e de ideias para dividir com os adultos que quiserem ouvi-los. Estão cheios de dúvidas que podemos acolher, se a gente souber quais são.

Estão cheios de ousadias reprimidas em cardápios infantis.