Sete dias de domingo

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Vivian Wrona Vainzof

Durante a semana eu madrugo. Abrir o olho antes do sol acordar é alta madrugada para mim. Não me acostumo.

Acordar filho a essa hora é tortura, mesmo que acordem ainda mais cedo no domingo. Por isso acho tão injusto que eles se vistam em operação tartaruga na segunda feira, que o café da manhã passe da hora, e que pôr as meias seja um inveterado desencontro de mãos e pés e o que estiver passando na cabeça. Há uma camada atrás da outra de obstáculos, até passar pela porta da sala com a mochila fechada, de cara lavada e tudo no lugar. Daí eu achar que viver em São Paulo é uma eterna corrida sem linha de chegada. Cada manhã, uma vitória na São Silvestre.

Até que fui convidada para um encontro na hora do café. Reunião íntima, só para pôr o papo em dia, para matar as saudades num dia qualquer de verão. Então deixei as crianças na escola, como faço sempre e, mais uns minutos, cheguei. Na calçada, antes de tocar a campainha, me ocorreu que era quase madrugada e não se visita alguém de madrugada. Marcamos um café mas não a hora. A que horas será que tomam café as pessoas que não madrugam com a escola?

A casa era silêncio. As janelas ainda estavam fechadas, mas lembrei que também não abri as cortinas antes de sair. Será que todos dormiam? Como podiam estar dormindo se o rádio já cantava “vambora, vambora, olha a hora”? Será que eles não olhavam a hora?
Preferi não tocar. Meu escritório estava no bolso, então esperei. Sentada no banco do carro, em frente ao portão, dando tempo ao tempo, trabalhei, ouvi as notícias no rádio, li, escrevi.

Quando vi mais gente na calçada, quando enxerguei a cor do céu, quando ouvi uns cachorros latindo na vizinhança, arrisquei uma mensagem que demorou mais um pouco para ser respondida. “Estamos acordados, entra”. Descobri, assim, como vivem as famílias que não correm para a linha de chegada. Entendi que algumas famílias acordam sem despertador, sentam juntas à mesa, tomam chá sem queimar a língua, conversam logo cedo. As crianças, de pijama, sorriem. Descobri como essas famílias vivem, enquanto outras correm contra o relógio, e existem para superar obstáculos, atrasadas para viver.

Colocamos o papo em dia, matamos a saudades, tomamos café como se fosse domingo. Quantos domingos será que há na semana dessa gente?

Me despedi tão tranquila que, de repente, achei que já era hora do almoço, corri para o carro, acelerei até o farol antes de olhar para o relógio do carro: a hora não chegava às nove ainda. Eu tinha um dia todo para me apressar enquanto algumas famílias, viveriam.