Silêncio em resposta

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Vivian Wrona Vainzof

Quando eu era criança, achava que as vacas compreendiam umas às outras e que seus mugidos sempre tinham algo a dizer. Um dia minha mãe me contou que aquilo era conversa para boi dormir e eu tive que dormir com essa desilusão.

Hoje vivemos uma ilusão de conexão com o mundo inteiro, mas não conseguimos nos conectar nem com nós mesmos. Desenganados, acreditamos estar na era da comunicação mas o que estamos vendo são gritos sem ouvidos. Estamos mugindo em todos os tons. Estamos inchados de razão. Vivendo de opiniões tão inflamadas que se convertem em chamas, enquanto a compreensão escapa pelas chaminés.

Foi aos poucos que viramos gado e nos confinamos aqui? Como pudemos abrir mão da paz que silencia os rosnados, os dentes arreganhados, os embates em chifre? Acho ensurdecedora a ideia de que perdemos a capacidade saudável de ficar sozinhos, de guardar para si o que seria só nosso. De deixar os filhos sozinhos.

E isso não significa estar só...

Esfumaçamos nossa condição de um encontro interno, de escutar nossos pensamentos antes que virem voz, e continuamos mugindo, cuspindo as palavras. Mas se você comesse o que diz, o que escreve, posta e compartilha, você estaria nutrido ou envenenado?

Por que tornou-se importante que todos saibam o que cada um de nós pensa, se cada um de nós não se importa com o que o mundo todo pensa?

La fora há uma guerra de cada um por si, onde não há vencedores. O silêncio brota interno, escuto meu toque de recolher. A quê teus sentidos te convocam por dentro?

Que pais nossos filhos assistem fazer uso das novas tecnologias, das redes sociais? E que filhos queremos preparar para a comunicação do futuro?

De onde vejo, estamos perdidos.

Mas me lembro de Clarice Lispector e encontro alento: “perder-se também é caminho”.

Talvez silêncio também seja resposta. Ou nos leve a respostas suavizadas pela espera, sem mugidos.

E que isso possa ajudar cada um de nós a se reencontrar.