Sobrepeso

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Vivian Wrona Vainzof

Não sou do culto ao corpo, não subo jamais numa balança, a não ser que eu esteja no parquinho, mas começo a achar que já é hora de me cuidar. Dia desses reparei nos meus excessos. Saía de casa corrida, no ombro a bolsa, uma sacola, o computador e a lista de compras. No caminho, ainda ofereci o dedo mindinho em gancho para segurar a lancheira de um filho enquanto ele amarrava os sapatos. Mas nada disso me pesa tanto quanto a pilha bamba que carrego no topo da cabeça, sem ninguém ver. Uma pilha de coisas que me preocupam, outras que devo lembrar de fazer, lembrar de comprar, de buscar, ou lembrar de dizer ou de não dizer, coisas que penso, que repenso e mais umas que preciso lembrar de esquecer. Mas lembrar de esquecer é uma ruína, porque quando lembro delas já não dá para esquecer e a pilha só cresce, fico rodando, tentando encontrar a saída. Rodar e equilibrar a pilha de coisas na cabeça é coisa para mãe ou para malabaristas…

Deixo as crianças na escola, “fecha a mochila”, “leva o casaco”, ”devolve o lápis da Manu”, “a vovó que vem te buscar” e outras recomendações mais tarde, reparei na lancheria no banco da frente. Primeira queda do dia, lá do topo da minha pilha, direto para o banco do carro. Despencou sem fazer barulho, caiu da pilha de coisas a lembrar, enquanto eu empilhava outras mais, em meio aos beijos de bom dia.

Entro no supermercado tentando encontrar a lista de compras, reviro a bolsa, não acho. Será que coloquei na sacola? Passeio pelos corredores lembrando do que consigo, mas os itens não constavam da minha pilha. O que eu anoto, já não acumulo na memória bamba do topo da minha cabeça ou seria obesa mórbida pelo infinito excesso de peso. Dali para o café onde tenho uma reunião. No caminho, paro na farmácia, na papelaria e no sapateiro, mas ele não tinha troco, preciso fazer um depósito. Sento numa mesa da varanda, respondo para uns e-mails, escarafuncho a minha pilha, não posso esquecer de avisar que não jantaremos hoje, de deixar um envelope na portaria, de buscar o ferro que estava no conserto. Abro o computador, chega quem eu espero, toca o celular. “Dor de cabeça? Puxa… se pode medicar?, bom, eu não estou aí, não sou pediatra, mas se ele está com muita dor, é melhor, acho, obrigada, se ele não melhorar me liga outra vez, vou buscá-lo”.

“Me desculpe, era da escola, talvez eu tenha que sair para buscar. Mas você estava dizendo…”

“Será que ele está bem, será que ele está bem, será que ele está bem?”

A reunião já acabou e eu nem vi passar, mas sinto a pilha estalar com as possibilidades que acabei de imaginar. Mas enquanto cresce a pilha de ideias, o depósito para o sapateiro fica esmagado, achatado até sumir. Nada pessoal, mas como vou lembrar do pobre homem dias mais tarde, quando a topo da pilhar tiver soterrado a parte de baixo? Busco na escola, pergunto sobre a apresentação, “não era hoje?” Procuro na pilha. Se não despencou, perdeu-se, achei que era hoje… A dor de cabeça deve estar na pilha, mas onde, onde?! Ele já está bem, não preciso mais me preocupar, deve ser isso, só pode ser isso, que alívio, um peso a menos pra carregar.

Passo na lavanderia, paro no posto, dirijo para casa, o zelador me pára na garagem, quer saber se o filtro de água ficou bem instalado. Ficou? Não me lembro se bebi água hoje, preciso beber mais água ... “Ficou sim, desculpe não agradecer, eu estava tão corrida esses dias”.

Entro em casa sem correr. Vou até a cozinha, preciso beber um copo d’água antes do dia acabar, acho a lista de compras na geladeira, lembro do que foi que esqueci de comprar. Passo lá amanhã só para pegar o que faltou, eu penso.

Isso, se eu me lembrar.