Tá decidido

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Vivian Wrona Vainzof

Quando li a matéria do Joshua Rothman, no The New Yorker, me pus a matutar. Segundo ele, as escolhas são banhadas na nossa ignorância. A gente escolhe casar, se tornar pai ou mãe, mudar de trabalhou ou de país, mas quais são os ingredientes que realmente nos movem a fazer escolhas? Listas de pros e contras, antecipação de possíveis cenários, “quanto maiores as decisões, menos possibilidades temos de ponderar sobre elas. A gente agoniza sobre o filme que vai assistir no Netflix e depois se deixa levar por um programa de TV a mudar para Nova York; dedica semanas de pesquisa antes de comprar um celular novo, mas termina um namoro de anos, num impulso, depois de alguns goles de vinho”.

Em 2013, um filosofo da faculdade de Yale escreveu um artigo onde sugeria ser impossível saber o que significa esperar um bebê. Podemos ler ou ouvir dos outros o que isso significa para eles, mas quem acha que sabe o que pode esperar, segundo ele, está errado. “Conviver com outras crianças, cuidar do filhos dos outros, ter sobrinhos, podem ser experiências maravilhosas (ou terríveis) mas jamais será suficiente para saber o que é para você ter um filho”. Se você nunca provou jaca, jamais saberá o que é jaca.

Acreditamos ser oniscientes. Mas olhando de perto dá para ver que as escolhas se baseiam em condições imperfeitas que nos impedem de enxergar claramente. Escolhas se apoiam em fatos anteriores, alguns desconhecidos ou mal interpretados. Decisões complexas passam por previsões que podemos apenas supor. “A vida é uma consequência de escolhas que não se podem compreender tão simplesmente.”. E a gente vai lá e escolhe. Ou acha que escolhe.

Antes de ter filhos, eu queria sair a noite, poderia aguentar a ressaca do outro dia, a liberdade me ventava no rosto. Os filhos nos privam de alguns prazeres. Mas como mãe, nem sei se me fazem falta. Antes dos filhos, trocar fraldas e assistir a um desenho animado poderiam parecer momentos de tortura e depois deles, são momentos de plenitude. A gente muda como pais. Mas é impossível saber disso antes de viver a experiência. E tem quem escolhe não ter filhos. Quem é que sabe o tanto que desescolhe?

Quando tive meu segundo filho, me surpreendi com aquela nova mãe. Quando vi uma carinha que eu não reconheci, me senti inteiramente outra. Era uma mãe que acabava de nascer para aquele filho que chegava, alheia a todas as escolhas anteriores, os planos, as expectativas, a antecipação. Tudo o que eu pensei que escolhia era ilusório. Mas não escolher é leviano… Então, qual a boa fonte para as nossas escolhas?

Não conhecemos nossos valores futuros e, no entanto, são eles que determinam nossas escolhas de hoje. A única saída que vejo é viver com autenticidade. “Viver requer uma dose de abandono e descoberta. Eventualmente a gente deixa para trás uma identidade para criar e descobrir uma nova. Uma parte da vida é aguardar pela revelação de quem nos tornaremos”, filosofa, ainda, N. A. Paul, o de Yale.

Estou aguardando. Não tão preocupada com o que me tornarei, ou meus filhos se tornarão e sim mais atenta às revelações de todo dia, o sol e a sombra, o lado sombrio que tantas vezes varremos para debaixo do tapete.