Todas as mães são um monstro

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Maria Manuela Moog

Achei que eu estava devendo à arte da literatura nesta coluna e por isto me pus a pensar sobre livros que eu amava na infância. Além dos livros brilhantes da Ruth Rocha - um clássico do mundo infantil - me lembrei do livro “Quando a minha mãe virou um monstro”. Segue sinopse:

Ao receber a notícia de que os sobrinhos vêm lanchar, mamãe fica desesperada. A casa está uma bagunça, não há nada para servir para as visitas, e a pobre mãe não sabe por onde começar… Enquanto isso, os filhos só pensam em brincar. Em vez de arrumar suas coisas, sempre encontram outras para desarrumar, um motivo para brigar e outro para chorar. De repente, uma coisa estranha acontece com Mamãe.

Bom, como você deve presumir, ela vira um monstro.

Eu amava este livro! A cada coisa que acontece de mal e ela se irritava ou se cansava, uma parte do seu corpo mudava: umas orelhas pontudas, antenas de E.T e rabo de jacaré! Achava muito divertido a mãe do livro toda verde. Para além de divertido acaba por ser bastante didático também. Depois de lermos e relermos este livro várias vezes, sempre que eu e minha irmã fazíamos birra ou não colaborávamos com uma atividade da casa e vimos a minha mãe estressada e chateada nos olhávamos automaticamente naquela cumplicidade de quem diz “melhor mudarmos esta atitude, se não a mamãe vai virar um monstro”.

Com meu olhar de adulta hoje em dia, vejo que o livro de Joanna Harrison é bastante avant-garde. A narrativa aborda a questão da jornada de trabalho duplo, de como o peso das tarefas domésticas pesam sobre as mulheres. Enquanto todos se divertem ou cuidam das suas próprias vidas é a mulher que precisa aguentar todo o estresse emocional e laboral de deixar a casa arrumada, saber o que tem ou não tem na dispensa, lembrar das vacinas dos filhos e por aí vai… Às vezes olhamos mães na rua e pensamos coisas do tipo “nossa, não penteia esse cabelo, não?”. Bom, enquanto não houver um olhar de cumplicidade entre todos os membros da família, todas as mães serão um monstro.

Sobre o livro:
Autora e ilustradora: Joanna Harrison
Tradutora: Gilda de Aquino
Faixa Etária: A partir de 3 anos
Editora: Brinque-book

por Maria Manuela Moog em colunas, Arte e Percepção.

Maria Manuela Moog é graduada em Artes Cênicas, pós-graduada em Arte e Filosofia pela PUC-Rio e atualmente cursa o Mestrado na Universidade Nova de Lisboa. Se encantou pelo universo artístico aos sete anos quando interpretou um duende na peça de teatro da escola, e desde então é uma operária da arte. Acredita que pessoas interessadas são pessoas interessantes e a melhor forma de absorver experiências é pelo afeto. Por isso, procura criar e fomentar arte em todas as esferas.