Tradições juninas na escola Waldorf

avatar de Talita Pryngler
Talita Pryngler

Em todo o país junho é um mês que guarda muitas comemorações, são as famosas festas juninas que se aproximam trazendo calor, música, danças e comidas típicas. Para mim e para muitos adultos que conheço a festa junina da nossa infância e adolescência era um dia para se fantasiar de caipira e comer as comidinhas típicas (milho, pinhão e canjica), não fazendo ideia àquela época de todo o significado que a festa trazia.

Tenho a oportunidade de vivenciar as celebrações de junho como mãe de uma escola Waldorf e as celebrações da festa da lanterna e festa junina são, com certeza, das mais importantes e bonitas do ano. Segundo a antroposofia (ciência que embasa a pedagogia Waldorf), o outono e o inverno trazem uma qualidade de reflexão importante para nós: a possibilidade da interiorização, de nos voltarmos para dentro e pensarmos sobre nossas atitudes cotidianas buscando assim, nossa luz interior e a transformação.

Nessa época, as professoras da educação infantil contam a história da Menina da Lanterna para as crianças e, na Festa da Lanterna, uma apresentação teatral é encenada pelos pais. A história fala de uma menina que vai em busca da luz da sua lanterna que o vento apagou. No caminho ela encontra com alguns animais que lhe negam ajuda e representam nosso lado mais primitivo e instintivo. Ela continua buscando e encontra com uma senhora fiandeira e com um sapateiro que representam, respectivamente, a sabedoria e o instrumento com que pisamos no chão, qualidades necessárias para continuarmos nossas buscas na vida. Mais à frente, a menina se depara com uma criança brincando, representando a leveza do brincar e a qualidade de presença tão características da infância. Como todos lhe negam ajpaisuda ela recorre ao sol que, finalmente, lhe devolve a sua luz. Ela então passeia feliz, trazendo luz a todos que encontrou no caminho. Nesse dia as crianças pequenas saem da escola, após o pôr do sol, para um passeio onde cada criança carrega sua lanterna com uma vela acesa dentro.

Num outro final de semana é celebrada a festa junina que traz também muitos símbolos e significados de conexão interna, com a terra, os alimentos, o fogo, as músicas e o sagrado. Dai fui entender que o traje de caipira faz lembrar os trabalhadores da terra, responsáveis pelo cultivo dos alimentos que nos trazem conforto e energia. As músicas típicas fazem parte do repertório popular e, muitas vezes, falam dos santos celebrados nessa época: São João, Santo Antônio e São Pedro. São músicas alegres, para dançar juntinho, trazendo calor humano para o friozinho da estação. Em algumas escolas a festa recebe a visita do Bumba meu boi maranhense, trazendo um elemento bem brasileiro para esta celebração. As mães, pais e crianças dançam com chapéus de vaqueiros cheios de fitas coloridas lembrando a história do boi do Maranhão.

Mas a fogueira, para mim, é o ponto alto da celebração. O fogo é fascinante e raramente estamos tão próximos dele. Ele aquece, transforma, ilumina, mas pode também queimar. Na festa Junina Waldorf as crianças do fundamental carregam ao anoitecer suas lanternas acesas e sentam em volta da fogueira. É um momento mágico, de concentração, de introspecção coletiva, como raras vezes vivemos. É hora então de acender a fogueira e cantar diversas músicas tradicionais.

Claro que as crianças não têm consciência de todos esses símbolos presentes nas celebrações, elas apenas vivenciam esses elementos brincando, dançando, cantando e comendo. Um dia, a posteriori, poderão se dar conta dos sentidos que essas manifestações populares carregam, se assim lhes interessar.

Depois de alguns anos vivenciando esse momento tão colorido, bonito e sagrado, espero ansiosamente por junho, para reviver essa conexão com o inverno, dar lugar a um momento de introspecção e deixar ver a luz chegar.

E para você, como são as festas juninas que você frequenta?

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.