Transgressão na adolescência, entrevista com Tiago Tamborini

Vanessa Skilnik

Sempre que ouço o psicólogo Tiago Tamborini em palestras e podcasts sempre saio com algum insight novo, ainda mais que tenho filhas estão entrando na adolescência. Para esta entrevista com ele escolhi falar sobre um ponto que me marcou muito nessas ocasiões: limites e transgressões na adolescência. Confira nosso papo!

Vamos começar alinhando os conceitos para nossos leitores. Pode definir transgressão no contexto crianças e adolescentes?

É importante fazer essa distinção. Para a criança, a transgressão envolve algo voltado uma experiência dela na relação com outro. Ela muitas vezes transgride para entender o limite do outro e a consequência daquilo que está fazendo. Pode ser algo corriqueiro, como comer uma bolacha do armário que a mãe disse que ainda não era hora e assim por diante. A transgressão da criança é ingênua.

Já a transgressão adolescente envolve uma consciência maior de estar fazendo algo que os pais ou a sociedade teoricamente reprimiriam ou não deixariam. Claro que temos diferentes níveis de de transgressão, pode ser a transgressão daquele adolescente que vai consumir bebida alcóolica numa festa sabendo que os pais não querem e que não poderia ser consumida por um menor de idade, ou a daquele jovem rouba dinheiro da carteira dos pais para comprar bebida dessa festa. De maneira geral, estamos falando de situações em que o adolescente vai contra os pais ou a sociedade diria que é correto.

Em qual idade as transgressões começam?

Transgredimos ao longo da vida inteira e é super normal, o que muda são os níveis de transgressão. Lembrando que a transgressão da criança é menos consciente enquanto, a partir da entrada adolescência e puberdade por volta dos 12-13 anos, essa transgressão muda o foco e passa a ser um tanto quanto mais perigosa no sentindo que o adolescente vai buscar o risco um pouco maior nessa relação transgressiva.

Porque a transgressão é um marco tão forte da adolescência?

A transgressão é parte da condição de um cérebro adolescente que fica menos sensível a dopamina (um neurotransmissor ligado à sensação de prazer). Na adolescência perde-se entre 1/3 e metade dos receptores de dopamina e, para atingir um nível maior de prazer, o adolescente precisa de estímulos mais intensos. Essa intensidade vem de diversas formas, através do sexo, drogas, relações e também da transgressão. Então é natural que o jovem busque transgressão.

Soma-se a isso outros fatores. Um deles é que a última parte do cérebro a ficar pronta é o córtex pré-frontal, capaz de prever consequências. Um adolescente não prevê consequências como um adulto. É por isso que temos aquela sensação de que até uns 20 poucos anos ter feito coisas que hoje não temos coragem de fazer. A partir dos 20 poucos anos idade essa parte já está pronta e a gente passa a prever melhor as consequências e logo ficar amedrontado sobre a vida.

Outro fator a somar é que nessa fase que o impulso sexual chegou com mais força. Lembre que somos animais, e essa é uma fase da vida de ir para o mundo, de buscar nosso bando, de procriar e preservar a espécie. A gente se torna mais agressivo e desfiado, mas sem a capacidade de pensar nas consequências. O leão que tem medo de lutar contra outro leão para procriar não procria e não evolui na espécie. O que evolui é o que não tem medo muita visão da consequência que pode sofrer.

Agora junta esse cenário todo. Perco receptores de dopamina e preciso de mais intensidade, entre elas a transgressão, que vem associada ao fato que não prevejo consequência como um adulto e eu não tenho tanto medo do que vai dar ruim. Colocando tudo no pacote é natural com mais ou menos intensidade que ele transgrida.

Para fechar o quadro, a psicologia entende que a transgressão é importante para a formação da identidade. O adolescente busca ele como sujeito, e não mais o que os pais ou o mundo querem dele. Quando ele transgride está sendo ele, vale o que ele quer do mundo, como ele vê o mundo. Transgredir traz esse sensação muito forte: eu não só não faço o que você não quer, não sou mais uma extensão do seu desejo, eu sou muito eu.

Uma de suas falas que me marcou bastante foi sobre a importância de “nivelar” as transgressões dos nossos filhos para que, sendo inevitáveis, que sejam menos arriscadas. Pode falar mais sobre isso?

O x da questão é que a sensação da transgressão é subjetiva. Tem quem sinta-se transgredindo mais ao beijar a(o) namorada(o) no quarto ao lado dos pais do que aquele que pega dinheiro na carteira dos pais. Como a sensação é subjetiva, logo cabe aos pais criar situações limitadoras e de castração para que esse jovem tenha uma sensação de transgressão mais leve, mais curta e menos perigosa nas suas experimentações. Um jovem que pode transar com a namorada (o) no quarto do lado, beber na frente dos pais com total autonomia, ter RG falsificado, viajar com os amigos e não dar satisfação. Um jovem que pode tudo, transgride onde? Vai buscar em situações mais perigosas e complicadas, vai consumir drogas pesadas pois o álcool e a maconha já são corriqueiros, transar no banheiro da balada e assim por diante. Eu costumo dizer para os pais que dar total liberdade na intenção que o adolescente não transgrida pois assim você sempre vai saber o que está acontecendo é permitir que ele transgrida com coisas muito maiores e mais perigosas. Por isso é importante impor limites, ainda sabendo que alguns ele vai transgredir.

Caso um filho cometa uma transgressão, qual deve ser a atitude do pai? Há quem diga que um bom papo com o filho (quando maior) já é suficiente para conscientização e mudança de comportamento e quem considere uma punição indispensável, mas relacionada ao ato. Qual a sua visão a respeito?

Primeiro acho que a palavra não é punição, e sim consequência. A consequência só não deve existir caso aquilo que o jovem, ou a criança, fez como transgressão já trouxe a consequência maior de qualquer coisa do que você pudesse fazer. Aquele adolescente que bebeu em excesso, bateu a cabeça e tomou 10 pontos na testa talvez volte para a casa com aquela sensação de “que que foi que eu fiz?” e você só vai falar “entendeu, né?”. Uma criança que levou uma boneca pra casa da amiga a acabou perdendo ou quebrando também já teve uma consequência e só cabe a você olhar e dizer “por favor seja mais cuidadosa na próxima”.

Caso contrário e em 99% das vezes, você como pai como mãe vai ter mesmo que trazer uma consequência e você foi perfeita na sua colocação de que tem que ser proporcional e ter relação direta ao ato inconsequente. Por exemplo, se seu filho não foi bem na escola talvez não faça sentido tirar a mesada, mas faça sentido tirar o videogame. Ah! Mas assim ele irá bem na escola e estudar? Não necessariamente, mas o que importa aqui é mais relação de causa e consequência: não vai bem na escola não tem direito a laser com videogame. Se ele vai estudar ou não é tema para outra entrevista, mas uma relação entre causa e consequência precisa existir sim.

Tiago Tamborini é Psicólogo. Especialista em comportamento de crianças e adolescentes. Autor do livro: Como educar no século XXI: O guia antipânico para pais e mães.
Você também pode acompanhar o Tiago pelo Instagram @tiagotamborini e pelo podcast Manual do Filho na Jovem Pan.