Tudo eu!

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Vivian Wrona Vainzof

Eu fico tão feliz quando as crianças guardam sozinhas todos os brinquedos. Ou mesmo com ajuda. Fico satisfeita até se tive que pedir dez vezes antes de acontecer.

Fico orgulhosa quando vejo que há esforço para terminar as tarefas, seja a lição da escola ou um quebra-cabeça de dez ou de mil peças.

Quando gritam, rosnam, rugem, batem pés e portas, me sinto decepcionada, frustrada, agredida, desrespeitada, será que fracassei na hora de educar?

Eu, eu eu. Tudo sobre mim, sobre a mãe, sobre o adulto.

Já aprendi que vale a pena trocar a apreciação do resultado pela valorização do esforço. Mas continuo, em grande medida, olhando para o que eu sinto, e não o que sentem eles. Me dei conta de que meus elogios vêm carregados de mim todinha no que deveria ser deles.

E sigo pedindo centenas de vezes para que guardem os brinquedos, para que façam a lição com capricho, para que não deixem os sapatos na sala, para que entrem no banho, para que mudem o tom de voz, para que me escutem de uma vez por todas. De uma ladainha a outra, o principal é que não estamos caminhando para alguma evolução de verdade. Eu sempre implorando e eles adiando, até que um de nós perde a paciência. Variante: todos perdem a paciência, chegando aos gritos e ameaças.

“Estamos lutando contra um hábito transgeracional”, me acalmou, hoje cedo, uma mãe sensível e atenta, de quem gosto de ouvir as considerações.

A luta é de cabeçada, mas deve haver um jeito mais eficaz, mais eficiente e mais glorioso de usar a cabeça nessa luta inglória.

Elogios são deliciosos, mas qual o seu proveito sincero? Um instante de alegria e o bicho já está faminto de novo pela próxima bocada. Um prazer transitório. Logo se espera mais aprovação, mais reconhecimento, mais palmas, medalha, trofeus e mais. Sempre mais.

O maior crescimento é da dependência do olhar que vem de fora.

Aprendi com Lynn Lotte e Jane Nelsen, precursoras da Disciplina Positiva, que “elogios são como doces, devem ser oferecidos ocasionalmente. Encorajamento, no entanto, é o alimento essencial”.

Quando ficam satisfeitos por ver que o esforço valeu a pena, quando sentem-se bem por colaborar, quando valorizam o quarto organizado, quando reconhecem que puderam se acalmar antes de agredir alguém no caminho, isso sim faz crescer.

É só a realização pessoal que alimenta, de verdade, a vontade de ser e fazer melhor, livres da aprovação do púbico e da crítica.

Então se sentirão orgulhosos das pessoas que são.

Neste dia, eu estarei aplaudindo em pé, quebrando a dieta, transbordando de orgulho.