Um ano bom e doce - Shaná Tová

avatar de Vivian Wrona Vainzof
Vivian Wrona Vainzof

Quando os doces começavam a brotar lá em casa, caixas e mais caixas de pães de mel, chocolates, marzipã, bolachinhas açucaradas, brigadeiros, biscoitos em forma de estrela, de favo, de abelha, bolos de maçã e muitas coisas de lamber os dedos e os beiços, eu já sabia que o ano novo estava chegando. A sensação é parecida com aquela das ruas decoradas com neve artificial e papai Noel, mas sem o apelo comercial que traz os panetones cada vez mais cedo.

O Réveillon religioso não se dá ao raiar do dia mas com o pôr do sol. O chamado também é para dias festivos em família, mas invoca mais profundidade, pelo menos para mim. É mais recolhido no horizonte do que aceso em cores. É mais forte e mais carregado. Recentemente notei que os presentes estão mais escassos e as caixas encolheram. Antes, os doces forravam toda a mesa da sala, agora se juntam, tímidos, num canto do aparador. Em vez de chocolates, recebi mais cartões. Não faz mal. De carona, acho sensato poder conter os exageros do açúcar, da ostentação, do desperdício, sem deixar de lado o carinho e a generosidade dos votos de ano novo.

Tradicionalmente, os desejos judaicos são para “um ano bom e doce”, e não um “feliz ano novo”. Matutei sobre isso. Conversei com meus filhos para tentar enxergar da altura que mais gosto de ver a vida. Entendi que a felicidade é efêmera e por isso mesmo passamos a vida toda tentando alcançar. Mas se a vida for vivida em boa companhia, com boas risadas e um bom vinho, não parece de bom tamanho? Se pudermos seguir por um bom caminho, de boas notícias e boas surpresas, com boa música, em boa saúde e com boas lembranças, o que mais podemos pedir a Ds? Só mesmo que seja doce.