Virando a esquina

avatar de Vivian Wrona Vainzof
Vivian Wrona Vainzof

Sempre andamos muito pelas calçadas da cidade. Desde pequenos, meus filhos passeiam a pé, um jeito da família estar junta, com o pé no chão e a cara de frente para a brisa sem mar. A conversa caminha com a gente, sem soltar da mão.

As crianças correm um pouco, às vezes se perdem na paisagem e esquecem de olhar as garagens, então paramos, falamos, retomamos mais devagar. Peço que esperem para atravessar a rua. Eles esperam.

Ultimamente, noto que meu mais velho está virando a esquina. Não o perco de vista mas ele tem dado uns passos a mais, está experimentando ir mais longe. Os quarteirões estão ficando curtos para ele, que já relou os dedos nas grades de todos os prédios, já tropeçou em tantos buracos do caminho, já experimentou quantos desvios?

Vamos juntos mas ele pede mais. Ele extrapola o caminho conhecido. Ele quer fugir da rota prevista, quer sair da vista, quer me contar o que vê e vem pela frente. E eu atrás. Quer ver o que só ele viu. Ele sozinho, eu com ele.

Como pode estar lá na frente se ainda está aqui do meu lado? Como pode estar do outro lado, se ainda andamos abraçados? Como pode estar dobrando a esquina se ainda ontem ele mal andava, mal falava e era eu descobrindo as dobrinhas, me desdobrando, enquanto ele me olhava, me olhava?...

Tenho ido até a esquina para tentar alcançá-lo, tentar encontrá-lo, ele nem sempre está lá.

Sei bem onde ele dorme e acorda, o que esgota sua paciência, o que o faz gargalhar e onde pede arrego. Tão ele quanto sempre foi. Mas tem coisa que eu não sei mais, nem sei se ele sabe. Tão ele quanto nunca foi antes, porque ele está dobrando de tamanho, tá me dobrando a toda esquina, está virando a esquina, está virando o eixo.

Ele está virando muita coisa.