Vó Zélia, Arcimboldo e o lúdico dos alimentos

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Maria Manuela Moog

Qual criança não adora doces? Mesmo quando os pais cumprem bem a missão de evitar o excesso de açúcar na vida dos filhos, há sempre um momento de exceção.

No meu caso, era quando eu ia na casa das minhas avós. Pudim, sorvete caseiro, bolo de chocolate são quitutes que povoam minhas lembranças infantis e até hoje me deixam com água na boca. Mas apesar destes doces serem os meus preferidos, eu gostava mesmo quando a minha avó paterna, na falta destes quitutes mais elaborados, improvisava um tradicional Romeu e Julieta cortando o queijo e a goiabada em pedaços diversos para compor o rosto de um palhacinho sobre a superfície redonda do prato.

De um momento para o outro não estava mais comendo a goiabada ou o queijo, mas o nariz ou a boca do palhaço. Cada garfada era uma escolha criteriosa, um desmembramento cuidadoso em uma mistura de perversidade e devoção. De uma forma ou outra, a sobremesa antes um tanto desdenhada, confesso, passava a ser fonte de diversão e entusiasmo.

Pouco mais tarde, conheci na escola um artista que nunca mais esqueci. Ele copiou a técnica da minha avó, mas de uma forma um pouquinho mais elaborada. Giuseppe Arcimboldo foi um pintor italiano do séc XVI. Ele é famoso por suas pinturas ambíguas compostas por vegetais, flores, frutas, objetos variados e até animais, elaborando a partir destas partes figuras humanas pitorescas.

Ao contrário do doce, frutas e legumes muitas vezes são rejeitados pelas crianças. Sei que muitos pais enfrentam uma dificuldade em inserir comidas mais saudáveis na alimentação dos filhos. Talvez, a partir dessas formas curiosas e divertidas presentes nas obras de Arcimboldo fique mais fácil aproximá-los do universo dos alimentos naturais.

Uma atividade bem fácil de elaborar nesse contexto e que estimula muito a criatividade da criança é propor este mesmo trabalho de composição que o artista usa em suas pinturas. Inspirado nos quadros da série “As quatro estações” de Arcimboldo os pequenos devem criar figuras humanas a partir das frutas e legumes. Para isso você só precisa de:

  • Cartolina
  • Cola bastão
  • Recortes diversos de diferentes frutas e legumes

Espero que cause o mesmo efeito que causou na minha escola, quando, de um momento para o outro, a criançada passou a almejar o brócolis que daria uma linda cabeleira ou a maçã que serviria como ótima bochecha.

Depois tente transportar esse aspecto lúdico do alimento para hora da refeição. Quem sabe assim os pequenos não se animem de comer a sobrancelha do seu boneco ao invés de comer o pedaço do chuchu?

PS: Colocando o nome do artista do Google é possível encontrar muitas outras imagens! Depois, é só deixar a criatividade dos pequenos fluírem e ver “que bicho vai dar”.

por Maria Manuela Moog em colunas, Arte e Percepção.

Manuela Moog é graduada em Artes Cênicas e pós-graduada em Arte e Filosofia pela PUC-Rio. Se encantou pelo universo artístico aos sete anos quando interpretou um doende na peça de teatro da escola, e desde então é uma operária da arte. Diretora, dramaturga, atriz e curadora. Faz parte da Cia.pontoDoc, companhia de teatro engajada em pesquisas artísticas socialmente relevantes. Acredita que pessoas interessadas são pessoas interessantes e a melhor forma de absorver experiências é pelo afeto. Por isso, procura criar e fomentar arte em todas as esferas. Instagram @manuelamoog