As relações netos e avós na pandemia

avatar de Dorli Kamkhagi
Dorli Kamkhagi

Vivemos numa realidade na qual o distanciamento físico foi imposto pela Covid-19. Agora estar longe pode significar amor. Mas como estar perto mesmo longe fisicamente? Preservar e cuidar das pessoas idosas torna-se fundamental neste momento para que não se sintam deprimidas ou esquecidas. As pessoas começaram a vivenciar um medo eminente de contrair o vírus e levar a doença a pessoas queridas e amadas. Instalou-se o medo da morte.

Começou a haver, além do distanciamento físico também um afastamento emocional. Avós não podem mais conviver com os netos. Os almoços de domingo, o momento de buscar na escola, observar o brincar das crianças, tudo de repente foi retirado. O abraço que não pode ser dado e o bolo que não pode mais ser compartilhado no chá da tarde. Tudo se tornou uma experiência solitária para os idosos que sentiram ainda mais os impactos do isolamento familiar.

Esta situação tem evidenciado o vazio pela falta de convívio com as pessoas pelas quais temos um grande afeto e que são normalmente a fonte de vida e de transmissão do amor. Escrever um bilhete carinhoso. Conversar virtualmente e usar a tecnologia a nosso favor. Tudo é possível quando estamos abertos e dispostos a dar e receber afeto. Só precisamos ir além das limitações e enxergar novos caminhos de nos encontrar. E ter sempre a certeza em mente que este momento vai passar e voltaremos a nos encontrar pessoalmente em breve e sem medos. Crescemos com a ideia de que nada substitui a presença, mas será que a gente não consegue com nossa força e resiliência virar o jogo? Podemos mais que imaginamos. Somos criativos, mas a saudade e a falta fazem parte deste processo de elaboração da realidade. Os idosos foram convocados a lidar com um grande vazio e para alguns a angústia tomou conta em um tempo de incertezas e de impotência.

Um tempo no qual os dias perderam suas características e rotinas.

O sábado era dia de estar com avós ; sexta era o dia de buscar o neto na escola. Os momentos de encontros e trocas foram suspensos.

Mas nem toda privação é perda. Este pode ser um tempo novo, de reinventarmos as formas de nos fazermos presentes nas vidas uns dos outros.

Criar uma forma de encontro: a avó pode fazer o bolo preferido da neta e mandar entregar, pode fazer um porta-retrato com uma foto da família e dizer que está com saudades. Escrever um bilhete carinhoso. Conversar virtualmente e usar a tecnologia a nosso favor. Tudo é possível quando estamos abertos e dispostos a dar e receber afeto. Só precisamos ir além das limitações e enxergar novos caminhos de nos encontrar.

E ter sempre a certeza em mente que este momento vai passar e voltaremos a nos encontrar pessoalmente em breve e sem medos.

Crescemos com a ideia de que nada substitui a presença, mas será que a gente não consegue com nossa força e resiliência virar o jogo?

Podemos mais que imaginamos. Somos criativos, mas a saudade e a falta fazem parte deste processo de elaboração da realidade.

Texto escrito em parceria com a Ana Carolina de Oliveira Costa, Mestre em Psicologia Clínica e coordenadora de grupos de envelhecimento do Laboratório de Neurociências da FMUSP