Quem quer ter os pés no chão?

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Vivian Wrona Vainzof

Na praça onde eu passo, um cachorro leva uma moça para passear. Ele corre pela praça e ela vai atra presa à coleira, arfando. Ela gosta, que a vejo voltar todo dia. Ele se diverte mais, rindo aquele riso de cão de praça. Passam com tanta pressa que às vezes tropeçam nas raizes dos fícus da calçada. São Paulo é cheia de árvores anciãs, com galhos em fio escorridos até o pé. Fossem cabelos e seriam brancos de sabidos. O tronco é pálido e enrugado. Se falassem, contariam mais histórias que minha bisavó. Eu dava tudo para ouvir história de árvore antiga, de ar respeitável, que já viu tanto e ouviu mais. Ontem na praça, uma figueira despenteada chamou as crianças para tocar as nuvens. Algumas galgaram alto, chegaram até o céu. Não queriam descer. E quem quer ter os pés no chão? Ficaram abraçadas no pescoço gordo da árvore, como abraçam uma professora preferida. No dia que chove, as crianças brincam na praça pela janela. Sobem no balanço, escorregam e fazem castelo de areia molhada sem ficar resfriadas. Depois, chamam a figueira para entrar e comer bolo de cenoura, cantam juntas, contam histórias sem hora para acabar. A figueira vai ao céu. Quando o sol descansa e os muros das casas refletem o último fiapo de luz do dia, as crianças guardam o mundo no bolso. Deitam sua imaginação na cama, de pé pra cima, e vão dormir crianças. Amanhã será outro dia, outra praça e essas mesmas crianças já serão outras. Serão o que quiserem ser, se puderem ser livres para crescer.

Quem quer ter os pés no chão?
Quem quer ter os pés no chão?