Voltar para vida, se lançar na vida.

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Deborah Goldemberg

Podemos procrastinar, mas inevitavelmente chega o dia em que nós mães temos que fazer a entrega da cria para a vida. Hormonalmente ou culturalmente, isso acontece. Mais cedo ou mais tarde, de acordo com cada mãe, seja por um clamor do mundo externo pela mãe (em geral, a que trabalha fora) ou por um empurrão do mundo privado (leia-se maridos, familiares e agregados) para ela voltar para o mundo público! Em geral, porque ninguém aguenta mais!

Comigo, aconteceu quando iniciei o desmame noturno, por pura exaustão e transtornos do sono que me acometeram. Nesta época, percebi que minha filha começou a chorar nos meus braços a palavra “mãe”. Antes, quando meu marido ajudava de noite, ela chorava por mãe e era só eu chegar, acolhê-la no peito, que ela adormecia feito um anjo. Agora, eu estava lá, mas ela ainda queria “mãe”. Dei-me conta que “mãe” não era mais eu. Ela queria aquela mãe total, mãe-corpo, mãe-alma, mãe vinte e quatro horas, mãe peito, mãe almofada, mãe chupeta, mãe, mãe, mãe. Tive que ter bastante convicção de que eu não poderia voltar atrás no processo de “entrega para a vida” nas muitas noites que a embalei no colo sem dar o peito, ouvindo-a clamar por “mãe”, porque realmente não tinha mais como continuar sendo aquela mãe de outrora. Não que eu não pudesse vir a ser outra, até mais legal, mas não aquela. Essa perda da mãe-total é nostálgica porque, sabemos, lança um pequeno ser humano na busca de uma vida inteira por “mãe” que, sabemos, nunca irá ser bem-sucedida. “Mãe” não volta mais, neném. Jamais haverá o calor e a estabilidade do útero. “Mãe” não volta mais, crianças. Jamais haverá o peitinho para acalmar e aconchegar as ansiedades que a vida gera. “Mãe” não volta mais, adolescentes. Jamais haverá alguém te cuidando e amando vinte e quatro horas. Aos poucos, buscar “mãe” na nossa própria mãe torna-se careta e uma pessoa adulta que o faz é tida como infantilizada. Aliás, é infantilizada!

Apesar de que, creio, todos nós buscamos uma réplica dessa sensação vida afora, de forma mais ou menos explícita. É fato que em poucos momentos voltaremos a ter a sensação de que re-encontramos “mãe”. Talvez, no início de um grande amor, em meio aos lençóis da paixão, tamanho o calor e a entrega desses momentos. Para as mulheres e alguns homens, a maternidade é o outro momento de se re-encontrar com “mãe”, desta vez sendo os próprios pais ou mães. Ter filhos é, afinal, ser assolado por esse amor que nos faz poder dar ao neném a mesma plenitude total que um dia tivemos.

No mais, entre o nascer e o parir, penso que somos busca. Busca pelo paraíso perdido na primeira infância. Busca para construir algo na vida que nos permita vivenciar isso de novo no nascimento dos nossos filhos. Buscas outras, que nos preencham e dêem sentido à vida. Sei que é nessa busca que o ser humano se torna capaz de construir pirâmides e obras de arte, mas nesses dias não estou muito civilizatória. Me dói que minha filha está, irremediavelmente, saindo da relma do ter “mãe” para ser mais uma de nós em busca.

por Deborah Goldemberg em colunas, Nove meses antes e novas mulheres depois.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.