À espera dos filhos

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Vivian Wrona Vainzof

De todas as coisas que eu poderia desejar a um filho recém nascido, de tudo o que passou na minha cabeça naqueles nove meses da expectativa que vi crescer mais que minha barriga, eu escolhi um ninho de amor. Uma imagem tão batida e tão piegas quanto são piegas e batidas as coisas do coração. E nesse caso, do útero também.

Me preparei para a chegada do primeiro filho como vi tantas outras mães fazerem: decorei o quarto como quem prepara um altar, embalei macacão amarelo de linha com gola bordada, organizei itens de higiene que eu nunca tinha visto antes e não sabia como usar, lavei fraldas de pano, perfumei as gavetas. Comprei mamadeiras de bicos em mil formatos, sem saber que meu bebê mamaria no peito até completar um ano. Quantos enganos vive uma mãe idealizando a jornada dos filhos.

Para a porta da maternidade, encomendei um quadro azul celeste onde dois passarinhos, pousados num galho comprido, estufavam o peito sem tirar os olhos do filhote que chegava ao ninho. Para o segundo filho, o mesmo ninho, no mesmo quadro, ganhou mais um passarinho. Eram meus votos de uma família amorosa, de um lar acolhedor, de convivência fraterna amigável e afetuosa, de proteção sem privar da liberdade dos voos próprios. Eram esses os meus desejos para meus filhos.

Transbordando de idealizações que escorriam até pelos mamilos, demorei a enxergar com clareza o que era eu, o que era filho, o que era amor, o que era medo, o que era possível e o que era devaneio. Eu passeava de camisola pelos corredores claros da maternidade, imaginando outras mães e outros bebês vivendo seus primeiros encontros com mais intimidade, mais sintonizados e menos assustados. De passo em passo, de porta em porta, eu fantasiava o que cada mãe vivia e pensava, e via pendurado o que cada família sonhava para seus bebês. Vi nome de anjo, vi principe de coroa, vi familia de crochê, vi sapatinho posado em barrigas gigantes, vi o uniforme do Corinthians e depois não consegui ver mais nada.

Fiel torcedora, frequentadora de estádio, senti um frio na espinha. Achei pouco. Achei insensível. Achei que de todas as coisas que alguém poderia desejar a um filho recém nascido ali estava uma expectativa só, de que o filho vestisse o desejo de ser o que sonharam que fosse. O que será que os pais pensam quando escolhem para as boas vindas aos filhos, uma representação desabitada, com falta de substância? Achei triste e descolorido. Não só porque o Corinthians é branco e preto e o meu desejo para filho é arco íris, mas porque acho que gente, no mundo, tem que fazer escolha e descobrir quem se é sem doutrinação.

Nada contra o futebol, nada contra as famílias que torcem e sofrem juntas pelo time do coração, que é a parte mais legal da torcida, nem penso que todos os pais que penduraram roupinha de time na porta da maternidade anularam seus desejos mais amorosos. Mas acho que o fla x flu nacional perdeu a graça, tanto no esporte como na política e na sociedade. Não dá mais para sonhar filho por algum viés tão militante, tão limitante, tão beligerantes e tão excludente. Assim como, mais tarde, não vai dar para se queixar que cresceram agressivos, intolerantes e que a sociedade se tornou competitiva e maniqueísta. Acho que não dá mais.