Entre a permissividade e o autoritarismo, há o caminho do meio

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Lia Vasconcelos

Gosto de pensar na disciplina e na parentalidade positivas como a linha tênue que separa os dois lados de uma estrada. Gosto também da imagem do caminho, sem que necessariamente tenhamos um destino certo. Um caminho sinuoso, como é a educação dos nossos filhos.

De um lado da estrada podemos pensar que está o autoritarismo e do outro, a permissividade. No meio, a disciplina positiva que se assenta em três pilares: firmeza, gentileza e respeito.

Jane Nelsen diz em seu livro, “Disciplina Positiva”: “parece que muitos pensam em termos desses dois extremos. Pessoas que pensam que punição é válida geralmente fazem isso porque acreditam que a única alternativa é a permissividade. Pessoas que não acreditam na punição geralmente vão para o outro extremo e se tornam muito permissivas. A disciplina positiva ajuda os adultos a encontrar um meio-termo respeitoso, que não seja punitivo nem permissivo”.

E por que o foco na gentileza e na firmeza são importantes? Porque uma educação firme e gentil ao mesmo tempo ajuda as crianças a desenvolverem habilidades sociais e de vida como, por exemplo, autoconfiança, ética, bom senso, respeito por si e pelos outros, gentileza, compaixão, autodisciplina, autocontrole, autonomia, cooperação, resolução de problemas, coragem e motivação.

Há resultados positivos e negativos quando focamos apenas na firmeza ou na gentileza. Vamos ver alguns? Se focamos apenas na gentileza, os resultados positivos são confiança, compaixão, autoestima elevada. Já os negativos podem ser falta de bom julgamento, a criança se achar merecedora de todos os privilégios, falta de responsabilidade.

Se focarmos apenas na firmeza, os resultados positivos podem ser obediência, previsibilidade e responsabilidade, enquanto os negativos podem ser rebelião, vingança, falta de conexão, ansiedade, alienação, baixo senso de segurança, distância e hostilidade.

Importante dizer que muitas vezes, as pessoas que optam por focar apenas na firmeza geralmente fazem isso porque querem evitar os resultados negativos do foco apenas na gentileza. E as pessoas que optam por focar apenas na gentileza geralmente fazem isso porque têm medo dos resultados do foco apenas na firmeza.

Os resultados positivos da gentileza e da firmeza inspiram as crianças a desenvolverem as características e habilidades de vida e os resultados negativos de focar apenas na gentileza ou apenas na firmeza inspiram os comportamentos desafiadores (birras, brigas com irmãos, resistência, irresponsabilidade, falta de foco, procrastinação…). Por isso, a disciplina positiva aposta na firmeza E na gentileza.

Para ficar mais claro, vou dar alguns exemplos:

Frases muito firmes:

  • Não vou pedir de novo. Pare de brincar agora ou seus brinquedos vão para o lixo!
  • Se você não parar de fazer isso, ficará de castigo.
  • Não me importo se você não quer escovar os dentes. Vá já para o banheiro!
  • Você disse que iria limpar seu quarto e não quero ouvir desculpas. Faça já.

Frases muito gentis:

  • Não sei porque você não me escuta. Estou tão triste.
  • Tudo bem. Vá em frente, queridx, mas esta é a última vez.
  • Pare de chorar, por favor. Você pode escolher uma coisa da loja desta vez, mas lembre-se que você não pode ter algo toda vez que vãos à loja.
  • Estou preocupado que você terá cáries se não escovar os dentes.
  • Queria que você comesse todo jantar. Pense em todas as crianças famintas na África.

Frases gentis e firmes ao mesmo tempo:

  • Eu sei que é difícil parar de brincar, e é hora de jantar.
  • Eu entendo que você prefere assistir TV a fazer sua lição de casa e a lição de casa precisa ser feita primeiro.
  • Você não quer escovar os dentes e eu não quero pagar a conta do dentista. Aposto uma corrida até o banheiro. Vamos ver quem chega primeiro?
  • Eu sei que você não quer fazer as tarefas domésticas e qual foi nosso acordo sobre quando elas seriam feitas?

Você percebe o uso de uma palavra mágica nas frases gentis e firmes? Não usamos o MAS, mas o E. Por que? Porque o mas tem o sentido de oposição e adversidade e quando você o usa na frase você invalida o que vem antes do mas. Com o uso do e você reconhece que aquilo que a criança está fazendo ou pedindo é importante. A diferença é sutil, mas fundamental.

Termino hoje com uma provocação da Jane Nelsen: “De onde tiramos a absurda ideia de que, para levar uma criança a agir melhor, precisamos antes fazê-la se sentir pior?”.

Lembre-se: a consciência é a chave para a mudança!