O enigma do primeiro enxoval

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Deborah Goldemberg

Toda revolução é anunciada pelo surgimento de uma nova linguagem. É assim com os movimentos literários, artísticos, políticos e… com a maternidade. Logo no início da gravidez, surgem listas enigmáticas de coisas essenciais para o enxoval do neném, que deixam claro que você está prestes a entrar num mundo totalmente distinto do que você habitava antes, de tão incompreensível a linguagem neles contida. Cuieiro? A diferença entre bebê conforto e moisés (com letra minúscula mesmo)? O que é um mijão? O que são conchas de amamentação? Bombinhas de leite? Quer dizer que bodies não são aqueles maiôs que a gente usava para fazer balé na década de 80?

As vendedoras das lojas de bebê não têm a menor simpatia por mães de primeira viagem. Elas estão tão calejadas do universo puérpero que nem passa pela cabeça que você não sabia o que são essas coisas todas. Uma dúzia de vezes entrei em lojas com dúvidas do tipo, “Me disseram para comprar mamadeiras anti-gases. Para quê servem?” e elas me olharam com desprezo total. Em geral, respondem repetindo a pergunta, “Elas ajudam com os gases.” Gases…gases? Que gases? De efeito estufa? Eu me sentia idiota, mas era apenas feliz e nunca tinha passado mais do que uma noite sem dormir oitos horas seguidas.

O problema não é só os itens serem incompreensíveis, mas a variedade de itens desta natureza. Eu sabia o que era um carrinho de neném, mas não o porquê de haver carrinhos que custam R$150 e outros R$2.500 - da mesma marca? O que poderia ser tão diferente entre eles? Uma vendedora caridosa me explicou que uns serviam para recém-nascidos e outros para crianças mais velhas. Ousei perguntar, “Mas não dá para o carrinho ser o mesmo desde que a criança nasce até ela não precisar mais?” Ela não resistiu me dar o olhar de desprezo total e disse, “Porque você ia querer isso? Os para criança mais velha são muito mais leves.” Vamos ser claros, uma mulher que nunca teve filhos não tem ideia do significado pleno de um carrinho de neném. Ela não imagina que o recém-nascido passa um bom tempo nele, mesmo dentro de casa, que ele funciona como uma cadeira móvel e, possivelmente, para os que vêm com o bendito moisés, para dormir a noite. Vendedoras-do-Brasil, entendam, é preciso soletrar para as novas mães: carrinho confortável com bebê conforto e moisés é legal para o início. Depois, você nunca mais vai usar o moisés, vai ter uma cadeirinha no carro e poder descartar o bebê conforto. Sua prioridade, então, vai se tornar um carrinho levinho para levar seu neném de um lado para o outro quando estiver com pressa ou ele adormecer no final da tarde e, daí, talvez, ele prefira algo mais coloridinho com algum bichinho divertido. Ok?

Enquanto fazia minhas descobertas, pensei em escrever uma lista de enxoval para mães de primeira viagem. Seria algo do tipo “lista-de-enxoval-de-neném-para-dummies”, com todos os detalhes e curiosidades que poderiam ajudar na compreensão do que está por vir. Depois, desencanei. Na verdade, assim como tudo o que está por vir, é impossível explicar. Não dá nem para começar a explicar, entendeu? Os enigmas das listas de enxovais são apenas um presságio para a revolução que sua vida está para passar.

Decifre-a ou ela te devorará!

por Deborah Goldemberg em colunas, diversos, idéias, Nove meses antes e novas mulheres depois.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.