Você escuta seu filho?

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Lia Vasconcelos

Escutar o outro não é fácil. Pressupõe amor, atenção, empatia e um desprendimento bastante grande para não julgar nem se sentir ameaçado. Pressupõe prática. Como dizem o psicanalista, escritor e professor da Universidade de São Paulo (USP), Christian Dunker, e o palhaço, escritor e educador Cláudio Thebas, no livro “O palhaço e o psicanalista”, “(...) escutar as crianças é um ato de coragem”. E, segundo eles, diferentemente do que pensam muitos adultos, escutar as crianças não significa obedecer às crianças!

Minha intenção nessa coluna não é fazer um manual da escuta, até porque isso nem existe – cada um/a com sua história e seu jeito pode encontrar uma maneira de escutar os outros. Mas vou aqui dar algumas dicas que podem ajudar a clarear essa jornada.

Com o tempo tão escasso e as individualidades tão valorizadas e exacerbadas, como escutar o outro? Como escutar as crianças? Escutar de forma ativa e empática é, de acordo com Marshall B. Rosenberg, autor do livro “Comunicação não-violenta”, “uma compreensão que tem por base o respeito por aquilo que o outro está sentindo. Em vez de nos lembrarmos de escutar de forma empática e ativa, temos uma grande tendência em aconselhar ou dar a nossa opinião. A escuta empática, no entanto, convida-nos a limpar nossa cabeça e a escutar de forma inteira”.

A cena é clássica. Diante de um conflito entre irmãos, por exemplo, raramente perguntamos o que aconteceu. Já imaginamos a cena na nossa cabeça, descrevemos, damos o desfecho e a “solução”. Mas se estamos nos propondo a escutar, precisamos mesmo falar tanto? Que tal lançarmos mão de perguntas curiosas? Exemplos: “Ah é? E o que aconteceu?”; “Conte-me tudo!”; “Queria saber mais…”; “E depois?”; “O que você estava tentando fazer?”; “Como você se sente sobre o que aconteceu?”; “Que interessante…”; “O que você acha que fez com que isso acontecesse?”; “O que você aprendeu com isso?”. Essas perguntas abrem espaço para que nossxs filhxs contem a história com sua própria voz, construindo sua própria narrativa.

Quando você escuta de verdade, não há julgamento, você simplesmente aceita o outro. E, quando fazemos isso, como diz Magda Gomes Dias, em seu livro, “Crianças felizes”, “permitimos que o nosso filho se exprima livremente junto de nós – e é justamente este o sentimento de ‘porto seguro’ que as crianças precisam ter e os pais gostam de ser”.

Podemos dizer que há três níveis de escuta. O primeiro nível é ouvir o que o outro está dizendo e associarmos com nossa própria vida, crenças e julgamentos. Nesse nível, nossos pensamentos ficam a mil por hora e interferem na escuta. No nível dois, conseguimos ouvir da perspectiva da pessoa que fala. É mais do que uma escuta empática: é sobre como identificar a emoção que seu interlocutor está sentindo naquele momento.

Por fim, o terceiro nível é a chamada escuta ativa que é ouvir da perspectiva de um observador. Essa escuta é profunda e deixa nossos interesses fora do caminho. Precisamos estar presentes. Pense em você, num canto, olhando a cena de fora. É um exercício poderoso. Apesar de no começo parecer um pouco forçado, a prática vai deixando tudo cada vez mais confortável.

Escutar crianças pode envolver mudanças de atitudes corporais como abaixar, alterar a voz, adequar o vocabulário e entender, sobretudo, que a discordância com os adultos é também um sinal da luta por autonomia e independência dxs nossxs filhxs.

São grandes os benefícios da escuta ativa já que sua prática promove uma relação mais positiva entre pais e filhos e ajuda as crianças a se sentirem pertencentes e importantes, dois princípios caros à Disciplina Positiva.

Ao mesmo tempo, ao escutar mais e falar menos, nós pais, conseguimos potencializar a capacidade de resolução de problemas por parte das crianças que se sentem capazes de gerir suas vidas de forma autônoma. Ao escutarmos nossxs filhxs ativamente, modelamos comportamento, ou seja, ao olharmos para eles com atenção e, de fato, ouvi-los, estamos também ensinando a eles a usarem a escuta ativa.

Como dizem Dunker e Thebas, “escutar com qualidade é algo que se aprende. Depende de alguma técnica e exercício, mas também e, principalmente, de abertura e experimentação”. Depende ainda da nossa disposição em colocar-nos vulnerável nessa relação. Precisamos estar abertos ao diálogo e à possibilidade de nos mostrarmos por inteiro.

Sem querer que funcione como um manual, Dunker e Thebas dão, em seu livro, sete dicas preciosas para trabalharmos o ouvir e ser ouvido:

  1. Falar em primeira pessoa: É importante assumir a responsabilidade sobre o que falamos. Em vez de dizer: “estou triste porque você viajou”, tente dizer: “estou triste porque eu preciso me sentir seguro e sua viagem me desestabilizou”.
  2. Responsabilidade com o que se diz: Precisamos fugir da nossa tendência em falar o que o outro quer ouvir porque isso nos acovarda, embrutece e empobrece nossos modos de dizer.
  3. Exponha o que sente Fale com sinceridade o que sente, mesmo que sejam sentimentos menos nobres. Precisamos é encontrar as palavras certas.
  4. Cuidado com a denegação Evite começar frases por “não”. Preste atenção em quantos “nãos” você repete e quantos “mas”.
  5. Respeite o fluxo: pedir, receber, dar e retribuir Conversas são trocas sociais que muitas vezes envolvem uma necessidade. Identificar essa necessidade, ou o que a situação exige, é o primeiro movimento que precisa ser respeitado. Compreensão, atenção, dinheiro, amor, respeito…não importa qual a necessidade, mas a relação é sempre de troca.
  6. Corra riscos com cuidado Escutar é um ato de coragem.
  7. Distinguir: culpa, responsabilidade e implicação Muitas vezes, produzimos culpados para não termos que lidar com nosso nível de responsabilidade. A responsabilidade e a implicação acontecem em silêncio, enquanto a culpabilização e a denúncia são ruidosas. Responsabilizar aponta para a solução. Culpar aponta para o problema.

por Lia Vasconcelos em colunas, parentalidade positiva.

Lia Vasconcelos é mãe de duas meninas e originalmente formada em Jornalismo e Ciências Sociais. Se encantou com os modelos da disciplina positiva e da parentalidade positiva e se certificou pela Positive Discipline Association (EUA) e pela Escola da Parentalidade (Portugal). Me encontre no @liavasco_educacao ou escreva para liavasco75@gmail.com para informacões sobre workshops.